Gyoji, a prática incessante
Seshin de Rohatsu de 1986
por Ryotan Tokuda
"Os rostos originais dos Buddhas e Patriarcas
não podem ser vistos. O rosto original, ossos e medula dos
Buddhas e Patriarcas também, como também não parecem ir ou
vir. Devemos examinar a prática incessante de um só dia.
Portanto, cada dia é precioso. Se vivermos em vão durante
1.000 anos, acabamos nos aborrecendo com os meses e os anos.
Isto é um tris-te desperdício de tempo. Mesmo 1.000 anos de
escravidão dos sentidos são redimidos por um só dia de
prática incessante. Uma vida corporal de um só dia é a
possessão mais valiosa de todas. Portanto, se vivermos
somente um dia e possuirmos a função de todos os Buddhas, um
dia é mais útil que reencarnar durante incontáveis vidas. Por
isto, se o problema da vida e morte não foi decisivamente
resolvido, não devemos desperdiçar um só dia sequer. Um só
dia é um grande tesouro a ser altamente cotado, é melhor,
muito melhor que um pe-daço de jade ou as jóias de um dragão.
Sábios do passado contavam um só dia mais que seus próprios
corpos e mentes. Devemos refletir calmamente sobre isto. E
descobrimos algo de mais precioso que a jóia que concede
todos os desejos ou riquezas. Mesmo um só dia em uma vida de
cem anos não pode ser devolvido ou tomado de volta. Existirá
algo que possamos fazer, alguma ação, algum método para que o
recuperemos? Tal não existe. Se desperdiçamos tempo, somos
enredados como a pele enreda o corpo. Santos e sábios davam
mais valor a cada dia e a cada mês que às suas próprias vida
e ao seu país. Se o tempo for desperdiçado, seremos cativados
pelo status e pela fortuna do mundo impermanente. Se
evitarmos, viveremos no Caminho. Se tivermos determinação,
não passaremos um só dia inutilmente. Pratiquemos e
proclamemos o Caminho! Portanto, tenha em mente que os
Buddhas e Patriarcas não gastam um dia sequer em prática
inútil. Durante os dias tranqüilos de primavera, sentemos
perto de uma janela cheia de luz e reflitamos sobre tal. Em
noi-tes de outono, de chuva fina, fiquemos em um choupana
simples de floresta e nos concentremos na prática. Sentimos
falta de tais tesouros porque não temos a prática. Como pode
a virtude da prática ser tempo roubado? Nada nos é roubado. A
virtude de muitos kalpas é roubada? O que causa o conflito
entre o tempo e nós mesmos? O ressentimento, porque a nossa
prática é insuficiente. Não devemos nos permitir sermos
condescendentes demais conosco mesmos. Isto causa
auto-ressentimento. Os Buddhas e Patriarcas também têm
ligações de gratidão e de amor. Eles, contudo, as abandonam.
Eles têm muitos relacionamentos, mas os abandonam. Mesmo que
lamentemos, não podemos nos aborrecer com nossas relações com
os outros. Se não cortarmos os liames de gratidão e de amor,
os laços de gratidão e de amor nos cortarão fora. Se temos
apegos com a gratidão e com o amor, devemos assim proceder.
Ter apegos nos mostra que devemos cortar tais coisas.
Esta é a continuação do capítulo do Sobogenzo , capítulo
Gyoji, a prática incessante. Aqui, vamos passando rápido, ele
está falando sobre a importância da prática. Como se
estivesse dizendo: falar sobre Zen, depois de algumas
leituras, uma pessoa inteligente consegue falar, por isto
existem vários tipos de Zen. O "Zen de salão" para os
ocidentais. Às vezes leram alguns livros sobre o assunto e
gostaram muito. Parece piada, né? Koans, etc., estas coisas
são impressionantes! Fica-se impressionado e narra-se estas
coisas num salão qualquer de sociedade. Com as damas, tomando
café, tomando chá, batendo papo, e aí falando sobre Zen.
"Isto é Zen!" Parece muito bonito, mas o fato é que nada tem
a ver com ele. Por isto, às vezes precisamos em vez de boca,
falar com o corpo. A boca pode mentir. Mas o que corpo está
fazendo é que esclarece as coisas completamente, ao invés da
fala. Então, pratiquemos quietos, mas sem cessar. O
praticante Zen falante, principalmente durante o sesshin,
guarda o silêncio com aquela cara... Mas se começa a falar
muito, então prejudica não somente a si mas aos outros
também. Depois do seshin pode-se falar, ao terminar o retiro.
Assim é o Mosteiro Zen e a prática com os colegas. Depois,
aqui no texto, fala-se sobre o tempo, sobre a impermanência;
nós os sentimos muito pouco em muito poucas ocasiões. Quando
há jovens, eles não entendem o sofrimento dos mais velhos.
Quando se tem saúde, não se entende o sofrimento dos doentes.
Quando tem-se força, saúde e beleza, tem-se orgulho e vaidade
e não se entende o sentimento de outras pessoas. Mas estas
coisas todas não dependem de si mesmo. Apenas acontecem, mas
isto não é algo que dure para sempre. Logo depois... até
ontem era um rapaz moço, mas hoje já está de barba branca.
Isto nunca mais se pode ter de volta. Todos sabem disso. Mas
sentir na al-ma, poucos podem.
Mestre Dogen coloca os quatro tipos de cavalos:
1) O que vendo a sombra do chicote, já começa a cavalgar; 2)
O que o chicote tem que tocar a pele; 3) O outro cavalo, o
chicote tem que cortar até a carne; 4) O último, o chicote
tem que cortar a carne e chegar até o osso, senão, ele não
sente. Isto significa que quando a pessoa encon-tra a morte
num jornal todos os dias, é um problema dos outros. Mas se
encontrar a morte de alguém mais próximo, lamenta-se: "Ele
era jovem, não deveria ainda ter morrido." Depois, quando é
um parente, pessoas mais íntimas, sente-se, sente-se muito e
se chora. Mas depois de algum tempo, se esquece novamente.
Agora , ele é aquele cavalo que só sente quando o chicote
corta a carne ou o osso quando chega o seu momento. Tem que
morrer amanhã. Não adianta. E assim temos os quatro tipos de
cavalos.
Neste caso, o Buddha Gautama era uma pessoa
muito sensível. Apesar de ser um príncipe, estava passando na
ci-dade e vendo tudo. O Rei, seu pai, preocupado, lhe falou:
"Vá passear para se divertir." E passeando, ele encontrou um
velho. "Quem é este?" Um camarada respondeu: "É um velho!"
Com as costas curvadas, não conseguia andar, era um velho. "O
que é velho?" "Ah, todo mundo fica velho com a idade, ninguém
disto escapa." "E eu também vou ficar assim?" "Pois é claro
que sim! Aqueles que são nascidos, envelhecem." "Ahhh!"
Sentido, ele voltou ao palácio. No dia seguinte, passeando
por um outro lado, se deparou com um doente sendo carregado,
suportando dores, e perguntou novamente: "O que vem a ser?".
"Isto é um doente". " O que é um doente?". "Enquanto temos
físico, ficamos do-entes". "Então eu também vou ficar
assim?". "É claro! Como todo mundo". Isto é muito simbólico,
mas ele, perfeito, com saúde, jovem, viu a doença e o
envelhecimento dentro de sua juventude. Encontrando com
mortos sendo conduzidos ao cemitério: "O que é isto?" "Isto é
a morte." "O que é a morte?". "O que é a morte? Todo mundo
morre, nasce e morre." . "Eu também?". "Claro, todo mundo
morre". E a quarta vez, saindo do castelo, encontrou-se com
um monge, andando tranqüilamente. "Quem é este?". "Este é um
monge". "Ah, talvez este seja o meu caminho". E assim o jovem
príncipe estava traçando a direção de sua vida. Abandonar,
renunciar. Até um dia sair do castelo. Este relacionamento
amoroso, pessoal mais forte, pai e mãe, esposa, filho,etc., é
uma coisa bonita, mas ao mesmo tempo agarra e amarra. Existem
leigos que vivem sozinhos, solteiros.
Hoje em dia monges também podem casar. Mas
antigamente, realmente se dedicando ao Caminho, todos pelo
menos uma vez cortavam todas as relações. Este tipo de coisa
é muito difícil. Existem koans para isto: " o dedinho
mindinho". O dedinho está amarrado com uma linha de costura,
uma linha vermelha. Porque é que não se pode cortar a linha?
O koan é este. "Porque não se pode cortar uma linha
vermelha?" Puxando um pouco se pode romper esta linha. Aqui
existe um relacionamento com as pessoas. Cortar requer
for-ça. Mas havendo sentimento, desligar-se é difícil. É
realmente difícil. Mas o mundo é assim. Na vida de monges, se
renuncia. Abandona-se. Neste momento é a própria força ou a
força dos outros. Um fio vermelho significa a relação com a
família, a mulher; é real-mente difícil cortar. Mas o tempo
que é tão precioso é uma coisa do mundo, mundana... Por isto,
uma vez despertado surgirá esta necessidade. E quando sentir,
aí surgirá o impulso de tudo largar. O trabalho, suas tarefas
e funções; mas a barreira é sempre este relacionamento mais
íntimo... Esta questão é mais para monges... Hoje em dia, os
monges casam, mas eu digo que o casamento de um monge não é
um casamento qualquer. Claro, todo mundo é assim,
principalmente monges, não é uma questão de casar por acaso.
Tendo-se uma certa idade, aí se deseja casar. Por que casar?
Porque ficar sozinho é muito chato. Fica-se solitário. Ou
talvez para alguns seja uma questão de confiança dada à
sociedade. Isto é a resposta, o casamento. Mas não, aqui se
trata de um amor mais profundo. Depois disto, existe alguém
mais além, e isto não é por acaso. Aqui são poucos os monges,
mas despertando, assustam-se com alguma coisa mais profunda,
talvez a impermanência. Quando se está realmente com este
sentimento, uma energia enorme leva-nos em frente.
De certa maneira, as pessoas se tornam enfim escravas dos
cinco sentidos. Comida boa, escutar música, ver coisas
bonitas, ler livros preciosos, arte, teatro. Mas o que
acontece é que o tempo passa tão rápido que assusta. Se
morrer aos setenta, oitenta anos, até que tudo bem, mas às
vezes morremos tão jovens, até os bebês podem morrer. Neste
momento nós realmente reagimos: "O que é isto?". O monge
Ikkyu, muito cínico, andava com um crânio na ponta do bastão
de peregrinação durante o Ano Novo. O ano Novo no Japão é
como o Natal aqui. Aqui todo mundo fala "Feliz Natal"; ou
então, "Feliz Ano No-vo". Mas porque razão "feliz"?
Completando o ano, a morte está chegando mais perto. "Ah, não
fale isto sobre o Ano Novo! Ano Novo é uma coisa boa, você
está falando em morte? Por favor, fale uma coisa alegre, mais
agradável." Então ele disse: "Primeiro morre o avô, em
seguida morre o pai e em terceiro lugar morre o filho." "Ah,
morre todo mundo?" . "Sim, mas morrendo nesta ordem, avô, pai
e filho, está muito bom. Se o filho morrer primeiro do que o
pai ou o avô, isto seria uma tristeza". Por isto, os monges
para sentirem a impermanência, faziam certos tipos de
meditações no cemitério, vendo cadáveres; quando vinham
desejos sexuais, iam lá e olhavam. Viam os corpos e os
cadáveres.
Na Índia jogavam-se os cadáveres no cemitério,
não enterravam, não faziam cremação. Aquela moça bonita
morreu, ela ainda pode despertar desejo, mas logo depois, um
dia, quando está quente, não leva nem 24 horas, começa a
correr líquido, um sangue meio aguado, e começa a inchar e a
mudar a cor, vermelho meio roxo, manchas; se morreu
acidental-mente com água ou com fogo é mais terrível. Como eu
sou monge, já encontrei vários tipos de mortes. Fui várias
vezes ao Instituto Médico Legal. É uma coisa terrível. Os
corpos ficam nas gavetas, na geladeira. Totalmente nus. E
geralmente todo mundo está cortado de cima abaixo e mal
costurado. Todos iremos para lá. Não importa se ricos ou
pobres. Nem se é inteligente, não importa, tem que passar por
lá, tirar todo a roupa e so-mente uma etiqueta no peito. Este
corpo cheira, cheira, e passa lá um dia, três dias, uma
semana... com mau cheiro. Comendo depois peixe assado,
grelhado, a carne não entra mais na boca. É o mesmo cheiro,
nós nos lembramos. A carne, coisas inchando e começando a
abrir, com bichos; começam a vir moscas, aparece o osso, um
cachorro vem e leva um pedaço. Daqui a pouco vem o vento e
leva tudo. Neste momento, com o que você está apegado? Este é
o outro lado da realidade. Aí vem aquele susto, a questão: "O
que é a vida e o que é a morte?". "O que é o amor?". "O que é
a eternidade?". "O que é o absoluto?". Estes tipos de
perguntas, quando uma vez surgem, não passam mais. Se não
resolvemos este sofrimento espiritual, não encontramos a paz.
Mas raramente este tipo de questionamento acontece, porque
neste mundo há tanta coisa bonita, tanta coisa boa, tanta
coisa divertida.
Um viajante encontrou com bichos, uma onça, um
tigre, leões, panteras; aí fugiu para dentro de um poço que
ele por acaso descobriu. E se segurou ali dentro em um cipó;
quando olhou para baixo, havia um outro bicho, uma serpente
venenosa, esperando de boca aberta. Desesperado, segurava
apenas a corda. E aí apareceram dois ratos, um branco e um
preto, e começaram a comer o cipó. Quando acabaram de roer,
ele caiu. E lá no fundo do poço encontrou uma flor aberta,
que deixava cair néctar; aí ele recebeu o mel com a língua:
"Ah, que doce!" E naquele momento o viajante esqueceu todos
os perigos. O que é isto? Estes quatro bichos são os pontos
cardeais, são os quatro sofrimentos: 1) a vida é sofrimento,
2) o envelhecimento é sofrimento, 3) a doença é um
sofrimento, 4) e a morte é um sofrimento. E o cipó, ao qual
ele estava agarrado, é o tempo; o dia é o rato branco e a
noite é rato negro. Dia e noite. E os outros animais... A
flor no poço o que é? A flor é a vida que dá as sensações
para satisfazer os desejos: comida, música, estes tipos de
desejos de bens materiais, sexo, etc, etc. Os jovens estão
procurando alguma coisa, mas não sabem o que. Não sabem onde
encontrar. Sexo, suspense. Com estas sensações instantâneas,
estão esquecendo certas coisas e, inconscientemente, estão
querendo fechar os olhos para outras. Então, cada vez mais
estas outras coisas são mais fortes. Com isto eles querem
esquecer a realidade. Mas quem despertou não pode esquecer.
Naturalmente, sozinho ele começa a se afastar das pessoas e
começa a meditar sozinho. Porque dentro dele aconteceu alguma
coisa errada. Alguma coisa errada. Com o que realmente se
pode contar? Começa a pensar: sobre seu pai, dinheiro, casa,
carro, esposa, filho. Para certas pessoas a resposta é
positiva: "eu tenho dinheiro, eu tenho casa, eu te-nho pai."
Mas para alguém mais esclarecido, realmente com que se pode
contar? Nem a nós mesmos podemos conduzir livremente. Tudo
despende uma força enorme. A isto se chama impermanência. Nós
batemos o han, o han é um tambor de madeira, não sei se vocês
notaram, primeiro bate-se sete vezes com o mesmo
distanciamento entre cada batida, depois carreira rápida,
depois bate-se cinco vezes, depois carreira, depois três
vezes mais. E assim o nosso tempo é cada vez menor:
7,5,3,1,0. Zero. Zero! Quando é zero é a hora do adeus. Aí se
vai embora. Falando desta maneira, as pessoas podem pensar:
"O Budismo é tão pessimista! Por isso que eu não gosto. Tem
cheiro de morte". Mas não é. Para realmente vivermos neste
mundo, pelo menos uma vez ou outra, ou em alguma ocasião, é
bom pensar um pouco. Pensamos que temos muito tempo pela
frente. Não! Metade já se foi, passou. 2/3 já se passaram.
Dentro da história japonesa, dentro da literatura, há uma
pala-vra, go-avai, que significa: as coisas lamentáveis deste
mundo. Sentindo a impermanência, mais lamentável ainda. É um
sentimento. Mas esta filosofia quando chega a ser mais
profunda, através dos monges Zen, fica ainda mais acentuada.
Como eu expressei, vendo as coisas que vi no limite deste
mundo, até onde se pode gozar?
Ainda temos um pouco de tempo. Têm perguntas, sobre este
assunto?... É por isto, dentro da história do Zen, que os
monges abandonam suas famílias. Isto é perigoso. Este
pensamento e esta filosofia, são muito perigosas hoje em dia,
para os jovens principalmente, que tão facilmente se separam.
Antigamente, o Sexto Patriarca cuidava de sua mãe com muito
amor e ainda assim abandonou tudo. Difícil de abandonar e
abandonou. É isto. Não é como hoje, que as pessoas estão tão
pouco ligadas, tão irresponsáveis. Não é neste senti-do. Por
isto, se for uma pessoa qualquer, então não deve brincar,
"ah, eu agora sou monge!". "E agora novamente vou voltar a
ser leigo!". "Ah, não deu certo, então eu sou monge
novamente". É desta forma que as pessoas estão brincando,
quando na verdade isto é uma coisa muito séria. Por isto até
agora, os grandes mestres são realmente heróis. Cor-taram
aquilo que não podia ser cortado. Por isto naturalmente, o
treinamento deles dentro do mosteiro é diferente dos demais
monges. Porque cobram de si mesmos e dos outros também as
situações e as mudanças bruscas. Tem que ser sério mesmo. É
assim a teoria que diz que nós devemos dedicar 99% ao
treinamento; agora cortando, depois renunciando ao mundo.
Amor todo mundo tem, mas este amor é limitado, apenas à sua
esposa, apenas ao seu próprio filho; se o filho brigar com o
filho do vizinho, em seguida começa a briga dos pais. Falam
muito também, especialmente os militares, em amor à pátria, e
o que é o amor à pátria? Amar a sua pátria... então começa a
guerra, e gritando no campo de batalha, os filhos se vão.
Vejam o resultado da Argentina: a guerra das Malvinas. É o
amor limitado a si mesmo ou aos vizinhos, pátrias, estados;
mas o verdadeiro amor é muito mais, uma coisa universal. Os
monges, cortando estes amores particulares, penetram no amor
universal ou fraternidade, uma coisa maior, e vivem neste
mundo mais amplo. Esta é a missão dos mon-ges. Não é apenas
fugir da responsabilidade deste mundo. Vem agora uma outra
espécie de responsabilidade de não acabar com este
treinamento, a prática incessante de todos os Buddhas e
Patriarcas que chegou até nós. Neste caso, isto se chama
grande compaixão, já não é mais amor. É grande compaixão. É
em cima disto que monges vivem. Se os monges não a tiverem,
apenas quiserem ganhar uma iluminação particular, sabedoria,
não terão verdadeira compaixão. No fundo, no fundo, há que se
ter esta grande compaixão. Neste caso, ela não tem limites de
espaço, ocidente ou oriente, sul ou norte, um país ou outro
país. Não tem esta diferença de país, distância, de espaço e
não tem limite de tempo, passado, presente e futuro. Aquele
amor de Jesus Cristo, até agora vive. Quantas pessoas foram
salvas com isto? Buddha, Confúcio, Sócrates, estas grandes
figuras da humanidade, apareceram, sacrificando as suas vidas
particulares e se ofereceram a todos os seres e, com isto,
estão numa outra dimensão, num outro nível de pensamento,
ajudando fora das coisas do mundo, em outro mundo sagrado.
Este é o mundo do Dharma, como nós o chamamos; neste caso, a
grande compaixão sem limites cobre tudo, todos os seres
humanos, todos os seres viventes, inclusive as plantas. Esta
é a filosofia fundamental budista, por isto este trabalho
ecológico, com o meio ambiente, voltado para a natureza, no
fundo está baseado nesta filosofia; não somente seres
humanos, mas o amor, a compaixão, alcança até os bichinhos,
até as plantas. Não matar, mas dar a vida pelas coisas, até
as coisas materiais, insensíveis, até os bens materiais. Até
isto: dar a vida até por estes objetos. Se maltratar, isto
quebra, precisa então consertar. Mas se tratar bem, este
relógio funciona por anos e anos sem quebrar. Então está se
dando a vida, para o gravador, para o cobertor, colchões,
esteiras, tapetes, etc, tudo. Não matar, significa dar a vida
para as coisas. Então, deste jeito, mudam-se todos os
conceitos e muito mais além ainda, mais além. Então, este
amor sem limites cobre tudo, passado, presente e futuro e o
espaço também, e ainda é incansável. Incansável, significa
que es-tamos querendo ajudar e salvar, mas não querem
aceitar, porque estão bêbados e estão adormecidos. Queremos
ajudar, mas não aceitam, porque estão apegados às coisas do
mun-do, não escutam, não reconhecem. Não desanime, não pare,
vá, vá, mesmo com muito sa-crifício e muitas dores, mas não
canse, vá, constantemente. As pessoas não têm natureza de
Buda? Como salvar este tipo de gente? Não quero abandonar
ninguém. Todo mundo tem que ser salvo. É a filosofia do
Bodhisattva. Esta filosofia do Bodhisattva é incansável.
Co-rajosa. A qualquer tipo de dificuldade pode-se fazer
frente. Sozinho. Esta é a dignidade dos monges. Se não a
tiver, é melhor voltar para casa. Morar com sua família, lar,
aquela comida quentinha, música, aquele sorriso bonito, é
bom. Depois daquela grande negação, vem esta grande
aceitação, a constatação de que o mundo é todo maravilhoso.
Tudo é ma-ravilhoso. Depois de passar por isto, nós sentimos
claramente. Senão, com pouco treina-mento, brigando sempre,
vamos nos separar. Deixemos de brincar com estas coisas
agora. O Shobogenzo, a prática incessante, é para isto, não é
para saber de nada mais. Zen, aqueles koans interessantes,
isto não é Zen de salão, tomando chá, não, é algo que parece
estar a-brindo a sua barriga, saindo dos intestinos e
andando, arrastando-se a dor. Senão é melhor ficar parado e
viver neste mundo. Tomar banho, ir para o cinema.
Temos um pouco mais de tempo. Têm perguntas?
Não sei se entenderam, perguntem para não haver mal
entendidos nesta parte de renúncia ao mundo. Por favor, as
senhoras aqui ficam muito preocupadas, não é isto. O Budismo
Mahayana é muito amplo com a compreensão de suas famílias.
Podem seguir o Caminho, não necessariamente sozinhos. O
caminho é muito amplo, muito amplo, pode-se ir com 2, com 3,
com um grupo, todos juntos. Mas algumas pessoas, realmente
poucas, levaram aquele susto... estes homens não tem jeito,
despertam. Se não houver perguntas sobre este assunto muito
sério... Desculpe, mas temos que encarar esta seriedade,
porque está no texto.
Pergunta: Que diferença faz saber destas
coisas, se na hora de vivê-las dói para todo mundo?
Resposta: Este treinamento Zen é "para estes
poucos" que levam a sério. Zen é uma coisa nova aqui, mas
aquele que o procura têm problemas, problemas psicológicos de
certa maneira, é um doente, apesar de ter saúde mental,
física e intelectual, mas mesmo assim é um doente. Doente de
vida verdadeira. Querem viver realmente. Assim, com a
necessidade, começam a procurar várias coisas e por acaso
alguns chegam até o Zen. Por isto, dentro do Zen, há esta
loucura, essa dureza, porque o treinamento dói, é duro. Mas
quem procura este Caminho, está escrito no texto, os seus
problemas doem mais ainda. Então estas dores não se comparam.
Por isto aguenta-se e vai-se muito mais além. Para frente.
Este treinamento é difícil. Mas realmente, a pessoa sabe o
valor. As coisas verdadeiras não são ganhas com tanta
facilidade . São difíceis. Por isto o treinamento é
simbolizado por pérolas que estão no queixo do dragão. Se a
pessoa precisa ganhar estas pérolas, tem que lutar com este
dragão. São Jorge, contra este dragão ou demônio, é você
mesmo. Se conseguir ganhar do dragão, se transforma em um
Deus, um Deus e guardião ao mesmo tempo. Este corpo pode
fazer muita coisa. Bobagens, besteiras com o karma, mas ao
mesmo tempo com este corpo nós podemos fazer muitos atos
bons. Isto é transformação. Encontrando-nos com o Caminho,
com este ensinamento, começamos a mudar. As células, carnes,
músculos, os ossos, se transformam no corpo de Buddha. Nós
temos o corpo do Buddha cósmico, mas ainda é muito simples,
precisa se transformar realmente, manifestar a beleza de
Buddha. Ainda fazemos muita besteira. Mas o treinamento é um
passo depois do outro.
Pergunta: O que significa que nós termos que lutar contra
o dragão?
Resposta: Esta luta é porque nós temos
ignorâncias incontáveis. Isto desde muito tempo atrás, e por
isto estas raízes são muito fortes. Tem que cortar . Esta é a
luta. A-gora, o Budismo Mahayana, o Zen, vai muito mais além:
tenta sem cortar estas ignorâncias, vivendo neste mundo com
família, com mulheres, com filhos, com pai e mãe realizar a
ilu-minação. Esta é que é a libertação verdadeira. O Zen é
assim. Dentro do Shingon esotérico é assim. Aceitação. Se uma
pessoa resolveu tudo e se iluminou, vem aquela exclamação do
Buda: "Que maravilhoso! Todas as coisas são douradas! Todos
os seres têm a na-tureza de Buddha. Céu, terra, todos os
seres viventes realizaram a iluminação comigo. Quem tem
ouvido, escuta o meu sermão!" Como o orvalho do céu: quem
toma uma vez deste orvalho, nunca mais morrerá. Quem está
sofrendo com esta mortalidade, esta impermanência, quem
encontra este ensinamento, é como tomar estas gotas do céu.
Este é o ensinamento do Buddha. Aí nunca se perderá a vida.
Todo mundo tem medo de doença, envelhecimento e morte. Então,
para quem pode ter esta pureza, esta tranqüilidade absolu-ta,
esta é a melhor coisa que existe. Não são somente os bens
materiais que contam, mas é dar segurança e vida, este é o
trabalho dos monges. Com esta missão, o egoísmo de seguir o
Caminho sozinho deve ser contrabalançado. Por isto, este é um
trabalho de herói. Como um herói, lutando contra milhões de
inimigos, pode-se mais ganhar para si mesmo. É um trabalho
muito difícil. É isto.
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