A Plenitude do Tempo e a Simultâneidade
Ryotan Tokuda
Esta é a transcrição da segunda
palestra do monge Tokuda sobre o pensamento comparado dos
mestres Dogen e Eckart, pronunciada em Porto Alegre, outubro
de 1989, como promoção do Centro de Estudos Budistas.
O que significam as expressões "plenitude do
tempo" e "simultaneidade"?
Inicialmente vamos ver algumas citações apresentadas por
mestre Eckart com diferentes significados para a "plenitude
do tempo": São Paulo diz: "Na plenitude do tempo, Deus mandou
seu Filho." Santo Agostinho diz: "Esta plenitude do tempo
consiste do seguinte: onde não existe mais tempo, isto é a
plenitude do tempo." Um outro significado da plenitude do: Se
alguém tivesse habilidade e poder de ajuntar no momento
presente o tempo e tudo o que aconteceu em seis mil anos ou o
que acontecerá até o fim dos tempos, agora, isto é que seria
a plenitude dos tempos.
Em A Palavra Secreta falei que para escutar a
voz de Deus existem três tipos de obstáculos: a
corporalidade, a temporariedade e a multiplicidade. Tomemos
inicialmente a temporariedade. Nessa dimensão de
temporariedade é que temos a vida e a morte, os pecados e
todo o tipo de dificuldades. Para superar essas dificuldades
todas temos então que transcender a temporariedade. A
"plenitude do tempo", como compreendida por Santo Agostinho,
significa "onde não há mais tempo", ou seja, o tempo se torna
a eternidade. Isso, essa dimensão, é a simultaneidade.
Quem começou a empregar esta palavra nessa
acepção foi Kierkegaard. Nesse contexto, . a expressão não
significa que estão ocorrendo eventos diferentes ao mesmo
tempo. Não. O sentido disso é diferente. O sentido é o da
simultaneidade original, onde Jesus Cristo está com seu Pai;
simultaneidade original transcendental. Sendo assim, par a
superar a temporariedade é preciso que se morra enquanto
existência temporal. Todos querem viver, mas é preciso
morrer. De certo modo todos buscamos, o tempo todo, o caminho
para chegar a esta eternidade, ao absoluto, à paz eterna. Com
este objetivo nos encaminhamos ao cristianismo, ao budismo,
ou a outras filosofias e religiões. Nos sentimos
irresistivelmente atraídos e compelidos a encontrar esta
eternidade.
"Simultaneidade" é isto, o lugar de onde
viemos e para onde voltaremos. É a origem e também o destino
final de nosso ser. Este é o sentido da expressão. Há ainda a
simultaneidade histórica, isto é, Jesus Cristo veio a este
mundo, nasceu, e com trinta e três anos foi crucificado. Ele
viveu como homem na terra, sofreu como nós, mas ao mesmo
tempo está transcendendo o temporal, está sempre
presente.
Quem busca o encontro com Deus, a realização
de si próprio, em primeiro lugar tem que ter a energia para
buscar a direção da simultaneidade original, o lugar onde
está Deus, imóvel, quieto: esta é a direção a percorrer. Mas,
paradoxalmente, a dificuldade de chegar até lá está
justamente na própria existência dessa vontade. Quando se tem
essa vontade, há a idéia de que "eu estou aqui e algo
absoluto está lá". Isto é, há a dualidade, há "eu e o
absoluto". Fica tudo dual, todas as coisas ficam separadas. É
preciso transcender isso, ou seja, na busca, a própria
vontade é obstáculo para a realização. Mas se não há a
vontade, como chegar lá? Indo, indo, indo e repentinamente
reconhecendo que a vontade, ela mesma, é um obstáculo. Aí
começa-se a abandonar tudo. Em vez de buscar, é então
necessário esquecer, abandonar, cortar, morrer, perder.
Dentro da experiência mística, esse tipo de morte não pode
faltar. Chama-se "via negativa". A via negativa é depois
sucedida pela via positiva, mas primeiro sempre vem essa via
negativa. O processo é doloroso mas e necessário passar por
ele pois a presença do ego e sempre muito forte.
Para entrar no estado de simultaneidade é
necessário transcender a temporariedade, a corporalidade e a
multiplicidade. Buda ganhou a iluminação dia 8 de dezembro em
Bodigaia. Sentado imóvel sob a árvore Bodi, viu as
estrelas na madrugada e disse, "que maravilhoso, todos os
seres viventes tem a natureza de Buda". E completou, "juntos
estão céu e terra comigo mesmo, ao mesmo tempo". Isto é
simultaneidade. Originalmente estamos iluminados junto com
Buda. Quando Buda ganhou a iluminação, nós a ganhamos ao
mesmo tempo. E com esta idéia, a prática de meditação, o
treinamento budista, muda inteiramente.
Geralmente a pessoa pensa que se pratica o
caminho para colher frutos depois, que é necessário treinar
para alcançar aquele estado. Neste enfoque, treinamento e
iluminação são duas coisas diferentes. O tempo também é visto
dentro do sentido convencional, primeiro o treinamento,
depois iluminação. Este é um obstáculo! Há no entanto a outra
idéia: estamos praticando, treinando, meditando... Por quê?
Porque somos iluminados originalmente, por isso estamos
sentando.
Esta compreensão surgiu originalmente ao
mestre Dogen. Mestre Dogen defrontou- se com uma grande
dúvida: "Todos os budas dizem que somos intrinsecamente de
uma natureza pura, sem qualquer mácula. Por que então treinar
e realizar o caminho?" Consultou os mestres da época e nenhum
soube responder, até que alguém disse, "retornou da China
recentemente um mestre zen japonês. E a única pessoa que pode
lhe dar a resposta". A resposta que Dogen buscava não poderia
ser verbal, mas deveria conduzir a realização, a entender
mesmo, a sentir experimentando. A resposta tinha que conduzir
à prática e à realização. Ele a encontrou no som dos vales e
nas cores das montanhas, reconhecendo a impossibilidade de
transmitir verbalmente essa experiência. Sobre isso, assim
falou: "Saibam que esta realização [quanto ás cores das
montanhas e ao som dos vales] é intransferível. Saibam que o
Buda não pôde expor o sentido da apresentação da flor e nem
Hui Neng, ficando em seu lugar, pôde alcançar a medula de
Bodidarma. Mas graças às virtudes dos sons dos vales, às
formas das montanhas e à terra imensa, todos os seres
sensoriais realizam o caminho, ao mesmo tempo que Sakiamuni e
todos os budas atingem o despertar no instante em que aparece
a estrela da manhã. "
"Os seres sensoriais realizam o caminho ao
mesmo tempo que Sakiamuni", diz mestre Dogen. Quando o Buda
Sakiamuni viu aquela estrela da madrugada, ganhou a
iluminação. Ao mesmo tempo, todos os seres sensoriais
realizaram o caminho perfeitamente. Ou seja, nada falta,
apenas não percebemos isto. As cores das montanhas estão
presentes, assim como os sons dos vales, como o sermão de
Buda, como o corpo de Buda. Isso nunca esteve oculto, a
dificuldade é nossa. Temos visão cármica, limitada,
condicionada e por isso não vemos; eis aí o sentido do
treinamento e da purificação.
Qual é, no entanto, a razão da prática, se
estamos já iluminados? É que sentando, já iluminado, cada um
se encontra consigo mesmo. O momento da prática do zazen é
então a própria realização. Mestre Eckart disse, "A alma é
criada como se estivesse num ponto entre o tempo e a
eternidade, tocando a ambos. Com os poderes mais elevados ela
toca a eternidade, mas com os poderes mais baixos ela toca o
tempo. Assim, observem, ela funciona no tempo não de acordo
com o tempo, mas de acordo com a eternidade." Isto é
simultaneidade. O mundo é visto como fumaça, sombra,
relâmpago, algo transitório.
Mas, e se você encontrar esta simultaneidade,
onde Deus sempre está presente? Então, é preciso compreender
que apesar de Jesus Cristo ter nascido em Nazaré, vivido e
morrido aos 33 anos, nós estamos em Porto Alegre, etc.
Enquanto um lado toca o tempo, no mesmo instante o outro lado
está tocando a eternidade. Então percebemos nosso sofrimento,
nossas dores, e compreendemos que um dia morreremos. Mas ao
mesmo tempo em que compreendemos isto, ao mesmo tempo em que
compreendemos este aspecto temporal da existência, percebemos
que vivemos na eternidade. Neste caso, nascimento-e-morte
perdem seu sentido anterior. Houve o encontro com Deus, a
realização. Isto é ao mesmo tempo budismo e cristianismo,
assim é que vejo.
Não estou falando em cristianismo e budismo
para comparar estas duas religióes; tampouco para comparar
mestre Eckart e Dogenzenji. Claro, comparando podemos
conhecer melhor a nós mesmos. Ainda assim, o sentido que me
move a estudar mestre Eckart e Dogenzenji não é o de
comparação. Através dessas duas figuras tento entender o que
é o ser humano, e, afinal de contas, o que é Deus e o que é
Buda, qual a origem do nosso ser; esta é a razão do meu
estudo. Quando encontramos Buda-Deus, encontramos a paz
eterna, apesar de estarmos sujeitos a surgimento e
desaparecimento.
Segue mestre Eckart: "Você sabe dizer me por
que Deus é Deus? Ele é Deus porque é sem criatura não
nomeou-se no tempo. No tempo estão todas as criaturas, o
pecado e a morte, e estes são, em certo sentido, parecidos.
Tão pronto a alma sai do tempo, ali não existem dor e
lamentação, até mesmo o desespero ela transforma então em
alegria." mestre Eckart está falando sobre o estado de
nirvana. Aí não existem mais pecados, dores; mesmo o
desespero se transforma em alegria. Desespero e dor existem
mas não atingem esse estado, por isso chama-se de nirvana.
Existem dois tipos de nirvana. Enquanto estamos vivos há o
corpo, e por isso a doença, envelhecimento e morte. Isso
ninguém pode evitar. Mas, morrendo, entra-se em parinirvana,
o nirvana perfeito; este é o estado de simultaneidade.
Simultaneidade e nirvana são a mesma coisa, são sinônimos,
apenas as expressões são diferentes, como "cristão e
budista".
Mestre Eckart diz: "Ele deve dar tudo ou nada.
Seu soar é simples, completamente simples e perfeito, sem
divisões. E não se dá no tempo, mas na eternidade. Estejam
certos disto, assim como eu vivo. Se é que vamos perceber
esta forma dele, devemos nos elevar até a eternidade, além do
tempo. Na eternidade todas as coisas estão presentes."
Todas as coisas estão presentes, nada
falta.
Mestre Dogen disse: "Zazen é como um
caramanchão no topo de um mirante." Você está lá sentado e vê
todas as coisas, tem aquela visão panorâmica. Estamos agora
montando o Mosteiro de Ouro Preto, no morro de São Sebastião,
o morro mais alto da cidade. De lá vemos a cidade. Vemos os
carros, ônibus e motos entrando, passando e saindo. Ali
pode-se ver passado, presente e futuro ao mesmo tempo. Isto
mestre Dogen diz, "entrando nas montanhas, subindo montanhas,
descendo montanhas... chega-se ao pico". De lá você tem a
visão panorâmica, muitas montanhas, muitos picos. É lindo! Vi
a montanha de baixo, subi na montanha e estive em seu pico e
agora estou aqui. Isto é passado, presente e futuro e está
tudo aqui no presente. Isto chama-se "agora", "absoluto",
"presente". Aí não há mais tempo. Entrando nesse estado,
presente, passado e futuro estão todos aí.
Tive uma vez uma experiência um pouco
esquisita. Meditando, pensei em cortar o tempo. Um ano em
doze meses, um mês em 30 dias, um dia em 24 horas, uma hora
em 60 minutos, um minuto em 60 segundos, e aí um segundo. Um
segundo eu visualizei como uma unidade e comecei a cortá-lo,
inicialmente pela metade, 1/2 segundo, e depois a metade da
metade e assim por diante, até que restou algo bem pequenino
como o intervalo de tempo, e não era mais possível cortar. Aí
então eu usei meu "aparelho cerebral" e tomei essa porção
como nova unidade e comecei a cortar, cortar... e com grande
atenção, como se estivesse sentado sobre um galho seco sobre
um rio e qualquer movimento pudesse me derrubar. Assim,
prossegui cortando, cortando... Enquanto havia o tempo, podia
cortá-lo, não é? Não sei durante quanto tempo isso se deu,
repentinamente meu corpo mergulhou dentro desse instante, no
momento. Esse instante tornou-se tanto o passado como o
futuro.
Esta é uma experiência muito estranha, o
passado infinito funde-se com o futuro infinito e ao mesmo
tempo é o presente agora! Isso não tem explicação, vejo
assim! Com essa experiência eu posso dizer, o passado já
passou, você não pode pegar; o futuro não veio ainda, e agora
mesmo podemos pegá-lo, ou não? Quando dizemos "ah, peguei",
já passou... Como pegar o tempo? A única maneira é mergulhar
dentro do tempo, onde não há mais tempo. Isto é prender o
tempo, quando não há mais tempo, a eternidade. Com o espaço
pode acontecer isto também. Não há mais espaço, não há mais
dimensão.
Quando criança, mestre Gensha era pescador, e
ajudava seu pai no mar. Numa ocasião, foram pescar à noite.
Durante a noite, às vezes, a pescaria é muito boa. Lá estavam
quando, não sei por que, de repente seu pai caiu no mar, e
ele imediatamente estendeu o remo em sua direção. Neste
momento a luz da lua refletiu-se nas ondas e ele ficou
paralisado, não mais movendo-se para salvar seu pai,
abandonando-o a sua sorte. O pai chamou "oh, filho, o que
você está fazendo?!" Ele então virou-se, e foi embora com o
barco, enquanto seu pai, exausto, afundava no mar.
Voltando à praia, deixou o mar, abandonou a
pesca, e imediatamente buscou as montanhas procurando um
mosteiro, onde tornou-se monge. Seu treinamento foi diferente
do de outros monges, foi muito duro. Passou um ano, outro e
mais outro com o mestre Sepu, um grande mestre. Mesmo assim
não conseguiu realizar a compreensão, sofrendo muito sempre.
Sentia que não conseguia avançar. Um dia pensou, "tenho um
carma muito pesado, talvez não tenha condição de realizar a
iluminação apenas com o auxílio desse mestre. Gostaria de
fazer uma viagem, uma peregrinação, visitando outros
mosteiros e conhecendo outros mestres". E tratou de obter
licença para a viagem.
Liberado por seu mestre, descendo a montanha
do mosteiro, no meio do caminho bateu o pé numa pedra,
quebrou a unha, sangrou muito e teve de suportar muita dor.
Em meio ao seu grito de dor, nesse exato momento, lembrou-se
do sutra e perguntou, "de onde vem esta dor?" Mas não era
verdadeiramente uma pergunta, e sim a realização dele, a sua
própria iluminação. Com a dor, ele gritou "ai! ai!"; neste
momento não tinha mais o seu corpo, o universo inteiro era
dor. Já que o corpo inteiro, o universo inteiro era dor, de
onde poderia vir essa dor? O sentido da pergunta era
este.
Imediatamente ele voltou ao mosteiro de onde
acabara de sair. Vendo isso, o mestre disse, "você começou
sua peregrinação apenas para quebrar seus pés?" Ele respondeu
"mestre, não brinque mais comigo..." E o mestre: "Tudo bem,
mas por que você não retoma a peregrinação?" Gensha
respondeu: "Bodidarma não veio à China, o segundo patriarca
não foi à Índia." Isto na verdade é um koan. Bodidarma
foi da Índia para a China para transmitir o Darma correto.
Ele foi o primeiro patriarca da China, isto todos sabem e
pertence à história. Mas Gensha disse: "Bodidarma não veio à
China e o segundo patriarca não foi à Índia." E,
historicamente, não foi. Aqui, a expressão "Bodidarma não
veio e o segundo patriarca não foi à India" é uma afirmação
que não se refere a ir e vir, mas ao não haver mais no mundo
ocidente e oriente, Índia, China. Isto havia passado. Ele
experimentava um mundo uno. Este é o sentido desse
diálogo.
Mestre Eckart diz, "Ali, o que está a mil
quilômetros de distância está tão próximo a mim como o lugar
onde estou agora. Existe plenitude e gozo na divindade,
existe uma só unidade. Ah, que nobre é aquele poder que
transcende o tempo e transcende o lugar, pois que está acima
do tempo e tanto contém todo o tempo como é todo o tempo. E,
por menos que o homem possa ter este poder que transcende o
tempo, ele é rico de fato com isto, pois aquilo que está além
do mar mais distante não está mais longe deste poder do que
aquilo que está presente aqui e agora. Portanto, são tais os
que o Pai procura. "
Para este poder do intelecto nada é distante
ou externo. O que está mais além do mar ou a mil quilômetros
de distância é tão verdadeiramente conhecido e presente
quanto este lugar onde estou neste momento. Este poder apanha
Deus nu em seu ser essencial. Ele é uno na unidade,
não-semelhante na semelhança. Com esta experiência, ele entra
na dimensão de simultaneidade, está tudo presente, em
unidade. Mestre Gensha disse: "eu e Buda Sakiamuni somos
colegas". Ao que um monge retrucou, "estranho, com quem você
aprendeu?". E o mestre Gensha respondeu: "Jassapru", nome do
pescador menino antes de tornar-se monge. Este foi o segundo
koan.
"Eu e Buda Sakiamuni somos colegas". Estranho,
mas também acontece. Na Bíblia também encontramos frases
assim. Jesus Cristo disse uma vez: "estou aqui antes de
Abraão e Davi". Estranho, não? Abraão e Davi aparecem já no
Velho Testamento, e Jesus Cristo no Novo Testamento. Como
poderia ele fazer tal afirmação tantos anos depois? O tempo
está então invertido aqui! Por quê? Jesus Cristo é o único
Filho de Deus. Quando Deus estava criando, Jesus Cristo
estava lá, vendo. Assim, isso não é nada estranho. O tempo
para nós existe aqui, mas em algum momento o tempo
desaparece, e surge a eternidade. Temos que viver este mundo
com o tempo e além do tempo. Você realiza a si próprio
encontrando-se com Deus e trabalhando para os outros.
Em João 15.15, diz Jesus: "Tudo o que ouvi de
meu Pai eu vos disse; eu não vos chamei de servos, mas de
amigos. O servo não conhece a vontade de seu mestre, mas o
amigo sabe tudo que sabe o seu amigo. Tudo aquilo que ouvi de
meu Pai transmiti a vocês, e tudo o que meu Pai sabe eu
também sei, e tudo aquilo que eu sei vocês sabem, pois eu e
meu Pai temos um só espírito": São Paulo disse: "Se você for
criado com o Cristo, então procure o que está acima, onde o
Cristo está sentado ao lado direito de sen Pai, e que não
provém das coisas que estão na terra. Vocês morrerão e suas
vidas estão ocultas com o Cristo em Deus, no céu. "
Simultaneidade é isto. Ao entrar na
simultaneidade, Buda, assim como Jesus Cristo, são seus
amigos, seus colegas, seus contemporâneos. Aqui não há o
tempo, nem antes e nem depois, você vive no mesmo mundo, você
vê com os mesmos olhos e escuta com os mesmos ouvidos dos
budas e de Jesus Cristo, e tudo está realizado neste momento.
Buda disse, "para entender a natureza de Buda, você tem que
entender o tempo, mas estudando você chega aí". Mestre Dogen
interpreta isto assim: "O tempo vai chegar e você entenderá,
mas na verdade o tempo já chegou, já está aqui". Quando se
fala "o tempo vai chegar", mesmo treinando com mestres
competentes, a realização nunca chega. Deixando o tempo,
meditando e treinando, o tempo já chegou. Já está realizado
neste momento. Mas não esperando o tempo chegar e amadurecer.
Enquanto você esta sentado, você já está realizado. É difícil
sentir isso com o consciente, mas é verdade. Por isso,
independentemente de ganhar a iluminação ou não, treine,
pratique. A prática já é a iluminação. Mestre Dogen disse:
"chegando ao último ponto, não pare, continue!"
Diz mestre Eckart: "Uma mulher perguntou a
Nosso Senhor como deveríamos rezar, e Nosso Senhor disse:
'Virá o tempo, e já chegou de fato, quando os verdadeiros
veneradores vão venerar em espírito e em verdade, pois que
Deus é um espírito; portanto, você deve rezar em espírito e
em verdade.'" Anotem bem o que é dito, a hora virá e é agora.
Aquele que veneraria o Pai, deve conduzir a eternidade em
seus desejos e esperanças. Existe um ponto mais elevado da
alma, que está além do tempo e nada sabe do tempo ou do
corpo. Ele fala aqui da promessa ou juramento do Pai. Essa
promessa também foi dada a nós, para que fôssemos batizados
no Espírito Santo e recebêssemos o presente dele, morando
além do tempo, na eternidade. No tempo , o Espírito Santo não
pode ser dado e nem recebido.
Dentro de treinamento zen, quando chega o
momento, se recebe a transmissão do Darma. Esse documento
chama-se "Shiho". É um documento que demonstra sua
árvore da linhagem de transmissão. Está escrito em seda pura,
com a marca de uma flor de ameixeira. É raro esse documento.
Aí encontra-se o nome de Buda e uma sucessão de nomes de
budas e patriarcas até seu mestre. A linhagem dos budas e
patriarcas começa com Shakamunibutsu Daiosho, após Makakasho
Daiosho, Ananda Daiosho, etc., até Bodaidaruma Daiosho,
seguindo ainda até o sexto patriarca. Depois prossegue,
passando de nome em nome até o mestre atual e chega a uma
linha final com o nome do novo Buda, o próprio nome do monge
que recebe o documento. Após esse nome, há uma linha que
conduz novamente de volta ao Buda Sakiamuni. Isto significa
que nesse momento tudo fica uma coisa só; apesar de haver
tantos patriarcas diferentes, na verdade todos são o mesmo.
Isso é a transmissão.
Os budas, patriarcas e grandes mestres, todos
treinaram e transmitiram este Darma até a mim. Eu estou
treinando; se isto for interrompido, essa transmissão não irá
adiante para as próximas gerações, terminará em mim mesmo.
Isso significa que todos os treinamentos dos que me
antecederam acabam comigo. Minha responsabilidade é muito
grande; esta é a única diferença entre monges e leigos. Os
leigos podem aprender, alcançar, ter a iluminação da mesma
forma que os monges, mas a especialidade do monge é a
responsabilidade em transmitir adiante esses ensinamentos.
Agora o budismo está chegando ao ocidente ocidente e também
ao Brasil. Isto significa que também depende de mim e de meu
treinamento a realização continuada de todos aqueles mestres,
patriarcas e budas. Quando temos esta consciência, o
treinamento do dia-a-dia não pode ser abandonado. Não é muita
coisa, não, é simplesmente manter continuamente o treinamento
de modo igual. Isto é importante. As dificuldades aparecem,
os obstáculos. Estes momentos, ao transcender as
dificuldades, tornarn-se momentos de iluminação, de
realização. Dentro da tradição budista, temos sete budas do
passado até Sakiamuni Buda, que são: Bibashibutsu Daiosho,
Shikibutsu Daiosho, Bishafubutsu Daiosho, Kurusonbutsu
Daiosho, Kunagonmunibutsu Daiosho, Kashobutsu Daiosho e
Shakamunibutsu Daiosho, o Buda Sakiamuni. E Ananda perguntou,
"esses sete budas do passado aprenderam com quem?", Buda
Sakiamuni disse, "eu sou o mestre deles". Aqui também o tempo
está invertido, os budas do passado, os que vieram antes de
Buda, aprenderam com o novo Buda! Como pode ser isso?
Uma coisa semelhante pode ser encontrada
dentro da Bíblia. Quando Jesus Cristo chegou para ser
batizado por João Batista, este disse, "não, eu não mereço
isso!" E Cristo: "Eu compreendo, mas dá-me o batismo neste
momento". São João então falou, "vou dar o batismo com água,
mas esta pessoa a quem batizo é que poderá batizar com o
Espírito Santo". Quando Cristo foi batizado o céu abriu-se e
apareceu um pombo branco. São João então disse, "Eu não
mereço nem mesmo lavar os seus pés, mas neste momento eu o
batizo". Assim são as relações mestre-discípulo. Quando
torna-se "um", o discípulo tem que ter capacidade de dar
ensinamento para seu próprio mestre! Não fosse assim, essa
força desapareceria.
Na tradição zen diz-se que, se o discípulo tem
uma força igual a do mestre, se ambos têm igual altura de
ombros, então a força fica dividida por dois. O discípulo tem
que subir e apoiar seus pés sobre os ombros de seu mestre.
Tem que ser maior e melhor do que seu próprio mestre. Com
isto ele consegue transmitir por inteiro a força completa de
seu mestre, sem nada perder. Dentro do zen, essa transmissão
é algo que preocupa muito. Passar de uma pessoa para outra é
difícil. Neste momento, o oriente está querendo transmitir
para o ocidente. Aí dá-se um grande choque cultural. A
linguagem é diferente, os costumes, a religião, a comida,
tudo é diferente. Mas mesmo assim, confiando na natureza de
Buda e na alma pura, há essa possibilidade de transmitir.
Isto porque, apesar de tudo, não há ocidente nem oriente para
a natureza de Buda.
Santo Agostinho encontrou duas grandes linhas
de filosofia antiga, a filosofia grega e a hebraica, e
ocorreu então um grande evento para os seres humanos e para a
fé em Cristo: a sua obra teológica. O encontro do ocidente
com o oriente já está acontecendo intensamente. Há grande
intercâmbio entre padres católicos e monges zen. Em 1986, na
cidade de Assis, na Itália, houve um encontro de todas as
religiões, em todas suas variadas origens geográficas.
Estiveram lá budistas, cristãos, africanos, índios,
muçulmanos, judeus, hinduístas, etc., reunidos e falando
sobre paz internacional. Isso revela este crescente espírito
de intercâmbio e paz.
Há um capítulo do Shobogenzo de mestre
Dogen chamado "A Lua". A lua tem quatro fases, a nova, a
crescente, a cheia e a minguante. Todos pensam que quando a
lua é cheia, está realizada, despertando aquela vontade de
buscar o caminho supremo, depois o treinamento, a iluminação
e nirvana. Mas mestre Dogen diz, quando a lua é crescente,
mesmo aí já há a realização completa, não é necessário nem
mesmo chegar à lua cheia. Com a lua minguante é a mesma
coisa. Falta um pequeno pedaço, mas exatamente assim ela está
perfeita e realizada. Essas afirmações nos aliviam muito,
pois temos muitos defeitos e dificuldades. Porém com isto já
há realização completa, por que preocupar-se? A única
preocupação é praticar, seguir. Algumas pessoas já estão
satisfeitas, nem mesmo precisam chegar à lua cheia. Alguns já
realizaram, assim não precisam se preocupar se a lua está ou
não cheia, ou se está começando a lua minguante. Nossa vida é
assim, muitos querem aprender sempre mais; é bom, mas na
verdade a realização já está pronta.
É importante compreender que o primeiro passo no budismo é
estar satisfeito com o que você tem agora. Ter poucos
desejos, poucas ambições, e estar satisfeito. Quando você
chega a este estado, você está já realizado, é lua cheia. Não
precisa ter tudo. Uma pessoa que já realizou a sua vida não
precisa de muito luxo, jóias, muitos carros. Simplificar a
vida, a comida, a maneira de viver é bom. E com isso vem a
felicidade, a ausência das preocupações bancárias... Neste
sentido, mestre Eckart fala do sol pela madrugada, das 10
horas da manhã, do meio-dia, da tarde e da noite. Com o sol
subindo o dia se aquece, mas depois começa a diminuir. A luz
da manhã é a luz da natureza, a luz do meio-dia é a luz dos
anjos, a luz da tarde é como a luz divina e, durante a noite,
é a luz de Deus. A noite não tem luz, mas é a luz máxima. A
luz começa aquecendo pela manhã, passando para o meio-dia o
calor que vai se acumulando até a tarde. Ou seja, em cada um
dos aspectos todos os outros estão presentes ao mesmo tempo.
Quando desperta a vontade de buscar o Caminho supremo, já
está realizado. Isso não quer dizer que deve-se interromper o
treinamento aí, só despertar a vontade não basta. É preciso
treinar.
Treinar constantemente alimenta a vontade. A
busca da mente Bodi é como olho de peixe, não é
diamante, apodrece se não cuidar. É preciso apenas continuar
constantemente. Chegando-se à iluminação pode-se pensar, "ah,
cheguei, vou parar com isto". Não, treinamento é iluminação,
e iluminação é treinamento. Por isso Buda passou por seis
anos de treinamento. Bodidarma foi à China e sentou nove anos
antes de pregar. Esses nove anos não foram para obter a
iluminação, ele já estava iluminado, foi apenas a
continuidade do sentar. Ninguém pode mais parar. Dentro do
zazen, com as pernas cruzadas, cruzam-se tempo e eternidade.
Apesar de vivermos neste mundo mortal, quando você senta,
está no estado de simultaneidade, junto com todos os budas do
passado, presente e futuro!
texto gentilmente cedido pelo Centro
de
Estudos Budistas Bodisatva
www.bodisatva.org
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