O Ensinamento Zen de Bodidarma
O budismo chegou à China 2.000 anos atrás.
Reporta-se que já no ano 65 d.C., uma comunidade de monges
budistas vivia sob proteção da realeza na parte norte da
Província de Kiangsu, próxima do local de nascimento de
Confúcio, e os primeiros monges provavelmente chegaram 100
anos antes. Desde então, dezenas de milhares de monges da
Índia e da Ásia Central têm viajado para China por terra e
mar, mas dentre aqueles que trouxeram os ensinamentos de Buda
para China, nenhum teve impacto comparável ao de
Bodhidharma.
Conhecido apenas por alguns discípulos durante
sua vida, Bodhidharma é o patriarca de milhões de
zen-budistas e de estudantes de kung-fu. Também é o
protagonista de muitas lendas. Além de ter trazido zen e
kung-fu, relata-se também ter trazido o chá para a China.
Para se resguardar de cair no sono durante a meditação, ele
cortou suas pálpebras, e onde elas caíram cresceram arbustos
de chá. Desde então, o chá tornou-se a bebida não somente de
monges mas de todos no Oriente. Fiéis a essa tradição, os
artistas invariavelmente representam Bodhidharma com olhos
salientes e sem pálpebras.
Como sempre acontece com as lendas, tornou-se
impossível separar fato de ficção. As datas são incertas. De
fato, eu conheço pelo menos um erudito budista que duvida que
Bodhidharma tenha existido. Mas correndo o risco de escrever
sobre um homem que nunca existiu, eu esbocei uma biografia,
baseada nos registros mais recentes e algumas suposições,
para fornecer um cenário para os sermões a ele
atribuídos.
Bodhidharma nasceu em torno do ano 440 em
Kanchi, capital do reino sulista indiano de Pallawa. Ele era
um brâmane de nascimento e o terceiro filho do Rei
Simhavarman. Quando ele era jovem, ele converteu-se ao
budismo, e mais tarde o Dharma lhe foi ensinado por
Prajnatara, de Magadha, que foi convidado pelo seu pai.
Magadha era o antigo centro do budismo. Também foi Prajnatara
quem disse para Bodhidharma ir para China. Uma vez que a
tradicional rota terrestre estava bloqueada pelos hunos, e
uma vez que Pallawa tinha laços comerciais por todo Sudeste
Asiático, Bodhidharma partiu de navio de um porto nas
proximidades, Mahaballipuram. Depois de contornar a costa da
Índia e a Península da Malásia por três anos, ele finalmente
chegou ao sul da China ao redor do ano 475.
Nessa época o país estava dividido pelas
dinastias Wei do norte e Liu Sung. Essa divisão da China numa
série de dinastias nortistas e sulistas começou no início do
Séc. III e continuou até o país ser reunificado sob a
dinastia Sui no fim do Séc. VI. Foi durante esse período de
divisão e conflito que o budismo indiano transformou-se em
budismo chinês, com os nortistas de mente militarista
enfatizando meditação e mágica e os intelectuais sulistas
preferindo discussão filosófica e a compreensão intuitiva de
princípios.
Quando Bodhidharma chegou à China, no fim do
Séc. V, haviam aproximadamente 2 mil templos budistas e 36
mil clérigos no sul. Ao norte, um recenseamento em 477 contou
6,5 mil templos e aproximadamente 80 mil clérigos. Menos de
50 anos mais tarde, outro recenseamento feito ao norte
aumentou esses números para 30 mil templos e 2 milhões de
clérigos, ou cerca de 5% da população. Sem dúvida, isso
incluía muitas pessoas que estavam tentando evitar impostos
ou recrutamento ou que procuravam a proteção da igreja por
outras razões não religiosas, mas claramente o budismo estava
espalhando-se pelas pessoas comuns ao norte do Rio Yangtze.
No sul, permaneceu muito confinado à elite educada até o Séc.
VI.
Seguindo a sua chegada ao porto de Nanhai,
Bodhidharma provavelmente visitou centros budistas no sul e
começou a aprender Chinês, se é que ele já não havia feito
isso em seu caminho desde a Índia. De acordo com A
Transmissão da Lâmpada de Tao-yuan, obra terminada em em
1002, Bodhidharma chegou ao sul tarde, em 520, e foi
convidado para capital em Chienkang para uma audiência com o
Imperador Wu da dinastia Liang, sucessor de Liu Sung. Durante
esse encontro o imperador perguntou sobre o mérito de
executar trabalhos religiosos, e Bodhidharma respondeu com a
doutrina do vazio. O imperador não entendeu, e Bodhidharma
partiu. Os registros mais recentes, no entanto, não mencionam
tal encontro.
Em qualquer caso, Bodhidharma cruzou o Rio
Yangtze - de acordo com a lenda, numa embarcação de bambu - e
estabeleceu-se ao norte. Primeiramente ele permaneceu ao
norte na capital de Wei, Pingcheng. Em 494, quando o
Imperador Hsiao-wen mudou sua capital para o sul de Loyang na
margem norte do Rio Lo, a maioria dos monges que viviam na
área de Pingcheng mudou-se também, e Bodhidharma
provavelmente estava entre eles. De acordo com o livro Vidas
Remotas de Monges Exemplares de Tao-hsuan, cujo primeiro
esboço foi escrito em 645, Bodhidharma ordenou um monge com o
nome Sheng-fu. Quando a capital foi mudada para Loyang,
Sheng-fu mudou-se para o sul. Uma vez que a ordenação
normalmente requer um aprendizado de três anos, Bodhidharma
já devia estar ao norte em torno do ano 490 e então devia
estar razoavelmente fluente em Chinês.
Alguns anos mais tarde, em 496, o imperador
ordenou a construção do Templo de Shaolin no Monte Sung, na
Província de Honan ao sudeste de Loyang. O templo, que ainda
existe (principalmente como atração turística), foi
construído para outro mestre de meditação da Índia, e não
para Bodhidharma. Embora mais mestres zen passaram pelo
templo nos últimos 1.500 anos, Bodhidharma é o único monge
que alguém além de um historiador budista associa com
Shaolin. Foi aqui, no Pico Shaoshih ocidental do Monte Sung,
que se diz que Bodhidharma passou nove anos em meditação, de
frente para parede de pedra de uma caverna a cerca de uma
milha do templo. Shaolin mais tarde tornou-se famoso como
centro de treinamento de monges em kung-fu, e Bodhidharma é
honrado como o fundador dessa arte igualmente. Vindo da
Índia, sem dúvida ele instruiu seus discípulos em alguma
forma de yoga, mas nenhum registro antigo menciona-o ensinar
qualquer exercício ou arte marcial.
Pelo ano 500, Loyang era uma das maiores
cidades no mundo, com uma população acima de meio milhão.
Quando o Imperador Hsuan-wu morreu em 516 e a imperadora
Dowager Ling assumiu o controle do governo, um de seus
primeiros atos foi mandar construir o Templo Yung-ning. A
construção desse templo e de seu pagoda de 400 pés de altura
quase exauriram o tesouro imperial. De acordo com um registro
dos templos de Loyang escrito em 547 por Yang Hsuan-chih, os
sinos-de-vento dourados pendurados nos beirais do telhado
podiam ser ouvidos a três milhas de distância e a ponta do
pagoda do templo podia ser vista a 30 milhas de distância. O
relato de Yang inclui os comentários de um monge do leste
chamado Bodhidharma, que disse ser a estrutura mais imponente
que ele já tinha visto. Uma vez que o templo não foi
construído antes de 516 e foi destruído por fogo em 534,
Bodhidharma deve ter estado na capital por volta de 520.
Registros antigos dizem que ele viajou por toda área de
Loyang, indo e vindo com as estações. Na capital, no entanto,
ele deve ter estado no Templo Yung-ming. Não confundir com o
Templo Yung-ning, Yung-ming foi construído alguns anos antes,
no começo do século VI, pelo Imperador Hsuan-wu, como templo
central para monges estrangeiros. Antes da evacuação de
massas da cidade durante o colapso de Wei ao norte em 534, o
templo foi lar de mais de 3 mil monges de países tão
distantes como a Síria.
Apesar da súbita popularidade do budismo na
China, Bodhidharma encontrou poucos discípulos. Além de
Sheng-fu, que mudou-se para o sul logo após a ordenação, os
únicos discípulos mencionados são Tao-yu e Hui-k'o. Diz-se
que ambos estudaram com Bodhidharma por cinco ou seis anos.
Tao-yu, nos é dito, entendeu o Caminho mas nunca ensinou. Foi
para Hui-k'o que Bodhidharma confiou o manto e a tigela de
sua linhagem e, de acordo com Tao-hsuan, uma cópia da
tradução do Sutra Lankavatara feita por Gunabhadra. No sermão
traduzido aqui, no entanto, faz citações principalmente do
Sutra do Nirvana, Avatamsaka e Vimilakirti e não usa
terminologia alguma característica do Lankavatara. Talvez
tenha sido Hui-k'o, e não Bodhidharma, quem tinha uma boa
opinião desse sutra.
Em sua Transmissão da Lâmpada, Tao-yuan diz que
logo depois que ele transmitiu o patriarcado de sua linhagem
para Hui-k'o, Bodhidharma morreu em 528 no quinto dia do
décimo mês, envenenado por um monge ciumento. Tao-hsuan
somente diz, em sua biografia muito mais antiga, que
Bodhidharma morreu nas margens do rio Lo e não menciona a
data e a causa da morte. De acordo com Tao-yuan, os restos de
Bodhidharma foram enterrados perto de Loyang no templo
Tinglin na Montanha Orelha de Urso. Tao-yuan também diz que
três anos mais tarde um oficial encontrou Bodhidharma
caminhando nas montanhas da Ásia Central. Ele estava
carregando um cajado no qual estava pendurada uma única
sandália, e ele disse ao oficial que estava voltando para a
Índia. Relatos desse encontro levantaram a curiosidade dos
outros monges, que finalmente concordaram em abrir a tumba de
Bodhidharma. Tudo que eles encontraram dentro foi uma única
sandália, e desde então Bodhidharma tem sido representado
carregando um cajado no qual se pendura a sandália
faltante.
Com o assassinato do Imperador Hsiao-wu em 534,
a nortista Wei dividiu-se em duas dinastias, Wei Ocidental e
Oriental, e Loyang foi atacada. Uma vez que a poderosa
família Kao de Wei Oriental era famosa por seu patrocínio ao
budismo, muitos dos monges que viviam em Loyang, incluindo
Hui-k'o, mudaram-se para Yeh, capital de Wi Oriental. Lá
finalmente Hui-k'o encontrou T'an-lin. T'an-lin trabalhou
primeiramente em Loyang e mais tarde em Yeh escrevendo
prefácios e comentários para novas traduções dos sutras
budistas. Depois de encontrar Hui-k'o, ele ficou interessado
na abordagem ao budismo de Bodhidharma e adicionou um breve
prefácio ao Esboço da Prática. Nesse prefácio ele diz que
Bodhidharma veio do sul da Índia e que depois de sua chegada
à China, ele achou apenas dois discípulos de valor, Hui-k'o e
Tao-yu. Ele também diz que Bodhidharma ensinava meditação na
parede e as quatro práticas descritas no Esboço.
Se isso é tudo que sabemos de Bodhidharma, por
que, então, é ele o mais famoso de milhões de monges que
estudaram e ensinaram o Dharma na China? A razão é que a ele
somente é creditado ter trazido o zen para China. É claro que
o zen, como meditação, tinha sido ensinado e praticado por
centenas de anos antes de Bodhidharma chegar. E muito do que
ele tinha para dizer a respeito da doutrina tinha sido dito
antes - por Tao-sheng, por exemplo, uma centena de anos
antes. Mas a abordagem ao zen de Bodhidharma era única. Como
ele diz nesses sermões "Ver sua natureza é zen... Não pensar
sobre coisa alguma é zen... Tudo que você faz é zen."
Enquanto outros viam o zen como purificação da mente ou como
um estágio no caminho para buditude, Bodhidharma equacionou
zen com a buditude - e a buditude com a mente, a mente do
dia-a-dia. Em vez de dizer aos seus discípulos para
purificarem suas mentes, ele lhes apontava paredes de pedra,
movimentos de tigres e garças, uma embarcação de bambu
flutuando no do Rio Yangtze, uma sandália. O zen de
Bodhidharma era zen Mahayana, e não zen Hinayana - a espada
da sabedoria, e não a almofada de meditação. Como fizeram
outros mestres, sem dúvida ele instruiu seus discípulos em
disciplina budista, meditação e doutrina, mas ele usou a
espada que Prajnatara lhe deu para livrar-lhes a mente das
regras, transes e escrituras. Tal espada, no entanto, é
difícil de pegar e difícil de usar. É uma pequena maravilha o
fato que seu único sucessor, Hui-k'o, tinha um braço só.
Mas tal entendimento radical do zen não
originou-se com Bodhidharma ou com Prajnatara. Dizem que um
dia Brahma, senhor da criação, ofereceu a Buda uma flor e
pediu-lhe para pregar o Dharma. Quando Buda levantou a flor,
sua audiência estava confusa, exceto Kashyapa, que sorriu.
Foi assim que o zen começou. E foi assim que ele foi
transmitido: com uma flor, com uma parede de pedra, com um
grito. Essa abordagem, uma vez que se fez conhecida por
Bodhidharma e seus sucessores, revolucionou o entendimento e
prática do budismo na China.
Tal abordagem não se encontra por acaso muito
bem em livros. Mas em seu livro Vidas Remotas de Monges
Exemplares, Tao-hsuan diz que os ensinamentos de Bodhidharma
foram escritos. Muitos eruditos concordam que Esboço da
Prática é um de tais registros, mas as opiniões dividem-se a
respeito dos outros três sermões aqui traduzidos. Todos os
três há muito são atribuídos a Bodhidharma, mas em anos
recentes um número de eruditos tem sugerido que esses três
sermões são trabalhos de discípulos mais jovens. Yaganida,
por exemplo, atribui o Sermão do Ciclo da Vida* a um membro
da Escola de Zen Cabeça de Boi, que floresceu nos séculos VII
e VIII, e pensamos que o Sermão do Despertar foi um trabalho
do Séc. VIII da escola de zen do norte e que o Sermão da
Grande Descoberta era de Shen-hsiu, o patriarca do Séc. VII
da escola de zen do norte.
Lamentavelmente, faltam evidências que
comprovem ou não a autoria. Até o corrente século, as cópias
conhecidas mais antigas desses sermões são versões do Séc.
XIV dos originais da dinastia T'ang (618-907) da coleção
Kanazawa Bunko do Japão. Mas com a descoberta de milhares de
manuscritos budistas da dinastia T'ang no início deste século
nas cavernas Tunhuang na China, agora temos cópias dos
séculos VII e VIII. Claramente esses sermões foram cedo
compilados por monges que remontavam seus ancestrais até
Bodhidharma. Se não foi Hui-k'o ou um de seus discípulos,
talvez tenha sido T'an-lin quem os escreveu. Em qualquer
caso, na ausência de evidências contrárias convincentes, eu
não vejo razão para não aceitar os sermões como do homem a
quem têm sido atribuídos por mais de 1.200 anos.
Os discípulos de Bodhidharma foram poucos, e a
tradição zen que remonta seus ancestrais a ele não começou
seu florescimento pleno até aproximadamente 200 anos após sua
morte. Dada a espontaneidade e desapego promovidos pela
abordagem de Bodhidharma ao zen, é fácil ver porque esses
sermões foram por fim negligenciados em favor de sermões de
mestres zen nativos. Por comparação, os sermões de
Bodhidharma parecem um tanto estranhos e despojados. Eu mesmo
só os encontrei por acaso, numa edição da Essência da
Transmissão da Mente de Huan-po. Isso foi 12 anos atrás.
Desde então eu afeiçoei-me ao seu zen de ossos nus, e eu
sempre tento imaginar por que eles não são mais populares.
Mas, populares ou não, ei-los novamente. Antes que se
evanesçam novamente na poeira de alguma cripta ou biblioteca,
leia-os uma ou duas vezes e procure a única coisa que
Bodhidharma trouxe para a China: procure a a marca da
mente.
Pinheiro Vermelho
Lago do Bambu, Taiwan
Grande Frio, Ano do Tigre
* N. da T. brasileira: A tradução literal do
ideograma para esse sermão seria Sangüíneo. O título em
Inglês é Sistema Circulatório.
Este texto foi traduzido para o português por
Shinzen,
que ofereceu sua tradução como presente ao Lama Samten
na sua ordenação em 14 de dezembro de 1996.
texto gentilmente cedido pelo site
www.bodisatva.org.br
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