O Sermão do Ciclo da Vida
Tudo que aparece nos três reinos vem da mente
(8). Portanto, os
budas (9) do
passado e do futuro ensinam de mente à mente sem se
importarem acerca de definições (10).
Mas se eles não definem mente, o que eles
querem dizer com mente?
Você pergunta, é a sua mente. Eu respondo, é a
minha mente. Se eu não tivesse mente, como eu poderia
responder? Se você não tivesse mente, como poderia perguntar?
Aquilo que pergunta é a sua mente. Durante kalpas(11) sem começo nem fim,
qualquer coisa que você faça, onde quer que você esteja, essa
é a sua mente verdadeira, esse é o seu verdadeiro buda. A
afirmação essa mente é o buda (12) diz o mesmo. Além dessa
mente você nunca encontrará outro buda. Procurar por
iluminação (13)
ou nirvana (14)
além dessa mente é impossível. A realidade de sua natureza
própria (15), a
ausência de causa e efeito, é o que se chama de mente. Sua
mente é nirvana. Você poderia achar um buda ou iluminação em
algum lugar além da mente, mas tal lugar não existe.
Tentar achar um buda ou iluminação é como
tentar agarrar o espaço. O espaço tem nome mas nenhuma forma.
Não é algo que você possa pegar ou largar. E você certamente
não pode agarrá-lo. Além dessa mente você nunca verá um buda.
O buda é um produto de sua mente. Por que procurar um buda
além dessa mente?
Os budas do passado e do futuro falam somente
dessa mente. A mente é o buda, e o buda é a mente. Além da
mente não há buda, e além de buda não há mente. Se você pensa
que há um buda além da mente, onde ele está? Não há buda além
da mente, então por que imaginar um? Você não pode conhecer
sua mente verdadeira uma vez que você se engane. Uma vez que
você seja escravizado por uma forma inanimada você não é
livre. Se você não me acreditar, auto-enganar-se não ajudará.
Não é falha dos budas. As pessoas estão iludidas. Elas não
são conscientes de que suas próprias mentes são o buda. Do
contrário, elas não procurariam por um buda fora da
mente.
Os budas não salvam budas. Se você utilizar sua
mente para procurar um buda, você não verá o buda. Uma vez
que você procure por um buda alhures, você nunca verá que sua
própria mente é o buda. Não use um buda para adorar um buda.
E não use sua mente para invocar um buda (16). Budas não recitam
sutras (17).
Budas não mantêm preceitos (18). E budas não quebram preceitos. Budas não
mantêm ou quebram coisa alguma. Budas não fazem bem ou
mal.
Para encontrar um buda você tem que ver sua
natureza (19) .
Quem quer que veja sua natureza é um buda. Se você não vê sua
natureza, invocar budas, recitar sutras, fazer oferendas e
manter preceitos é inútil. Invocar budas resulta em bom
carma, recitar sutras resulta em boa memória, manter
preceitos resulta em um bom renascimento e fazer oferendas
resulta em futuras bênçãos - mas não em budas.
Se você não entende por si só, você terá que
achar um professor para ensiná-lo sobre vida e morte (20) . Mas, exceto
veja sua natureza, tal pessoa não é um professor. Mesmo que
essa pessoa possa recitar o Cânone Desdobrado em Doze (21) , ela não pode
escapar da Roda de Nascimentos e Mortes (22) . Ela sofre nos três
reinos sem esperança e liberação.
Há muito tempo atrás, o monge Boa Estrela (23) era capaz de
recitar o Cânone completo. Mas ele não escapou da Roda, pois
ele não via sua natureza. Se foi isso que aconteceu com Boa
Estrela, então as pessoas de agora que recitam alguns sutras
ou shastras (24)
e pensam que isso é o Dharma são tolas. Exceto você veja sua
mente recitar tanta prosa é inútil.
Para achar um buda tudo que você tem que fazer
é ver sua natureza. Sua natureza é o buda. E o buda é a
pessoa livre: livre de planos, livre de cuidados. Se você não
ver sua natureza, e passar o tempo todo procurando noutro
lugar, você nunca encontrará um buda. A verdade é: nada há
para encontrar. Mas para atingir tal entendimento você
precisa lutar para entender. Vida e morte são importantes.
Não as sofra em vão. Não há vantagem em auto-enganar-se.
Mesmo que você tenha montanhas de jóias e tantos criados
quanto os grãos de areia do Ganges, você os vê quando os seus
olhos estão abertos. Mas enquanto seus olhos estiverem
fechados? Então você deveria perceber que tudo que você vê é
como um sonho ou ilusão.
Se você não encontrar um professor logo, você
viverá esta vida em vão. É verdade, você tem a natureza
búdica. Mas sem a ajuda de um professor você nunca a
conhecerá. Somente uma pessoa num milhão ilumina-se sem o
auxílio de um professor.
Se, todavia, numa situação afortunada, uma
pessoa entende o que Buda quis dizer, essa pessoa não precisa
de professor. Tal pessoa tem uma consciência natural superior
a todo ensinamento. Mas se você não for tão dotado, estude
muito, que através da instrução você entenderá.
As pessoas que não entendem e pensam que podem
entender sem estudo não são diferentes daquelas almas
iludidas que não podem diferenciar branco do preto (25) . Proclamando
falsamente o Dharma de Buda, de fato tais pessoas blasfemam
Buda e subvertem o Dharma. Elas rezam como se estivessem
chamando chuva. Mas sua rezas são dos demônios (26) , e não dos budas. Seu
professor é o Rei dos Infernos e seus discípulos são os
favoritos do demônio. Pessoas iludidas que seguem tais
instruções desajeitadamente afundam no Oceano de Nascimento e
Morte.
A menos que elas vejam sua natureza, como as
pessoas podem dizerem-se budas? Elas são mentirosas que
enganam outras, fazendo-as entrar no reino dos demônios. A
menos que elas vejam sua natureza, seu recitar do Cânone
Desdobrado em Doze é nada além do recitar dos demônios.
Devotam-se à Mara, não a Buda. Incapazes de distinguir branco
de preto, como podem eles escapar de nascimentos e
mortes?
Quem quer que veja sua natureza é um buda; quem
não vê é mortal. Mas se você pode achar sua natureza búdica
separada se sua mente de sua natureza mortal, onde ela está?
Nossa natureza mortal é nossa natureza búdica. Além dessa
natureza não há buda. O buda é nossa natureza. Não há buda
além dessa natureza. E não há natureza além do buda.
Mas suponha que eu não veja minha natureza, não
posso eu atingir a iluminação invocando budas, recitando
sutras, fazendo oferendas, observando preceitos, praticando
devoção ou fazendo boas ações?
Não, você não pode atingir a iluminação fazendo
isso.
Por que não?
Se você atinge algo, isso é condicional, isso é
cármico. Isso resulta em retribuição. Isso gira a Roda. E uma
vez que você é sujeito a renascimento e morte você nunca
atingirá a iluminação. Para atingir a iluminação você tem que
ver sua natureza. A não ser que você veja sua natureza toda
essa conversa sobre causa e efeito é insensata. Os budas não
praticam insensatez. Um buda é livre de carma (27) , livre de causa e
efeito. Dizer que ele atinge algo é depreciar um buda. O que
ele poderia atingir? Mesmo almejar uma mente, um poder, um
entendimento, ou uma visão é impossível para um buda. Um buda
não é parcial. A natureza de sua mente é basicamente vazia,
não é pura nem impura. Ele é livre de prática e percepção.
Ele é livre de causa e efeito.
Um buda não observa preceitos. Um buda não faz
bem ou mal. Um buda não é diligente ou preguiçoso. Um buda é
alguém que nada faz, alguém que não pode sequer focalizar sua
mente num buda. Um buda não é um buda. Não pense a respeito
de budas. Se você não vê o que estou falando, você nunca
conhecerá sua própria mente.
As pessoas que não vêm sua própria natureza e
imaginam que elas podem praticar todo o tempo
irrefletidamente são mentirosas e tolas. Elas caem num buraco
sem fundo. São como bêbados. Não podem diferir o bem e o mal.
Se você pretende cultivar tal prática, você tem que ver sua
natureza antes que você possa terminar as racionalizações.
Atingir a iluminação sem ver sua natureza é impossível.
Ainda assim outros cometem toda sorte de más
ações, proclamando que o carma não existe. Eles erroneamente
dizem que uma vez que tudo é vazio, cometer o mal não é
errado. Tais pessoas caem num inferno de escuridão sem fim,
sem esperança de liberação. Aqueles que são sábios não mantêm
tal concepção.
Mas se cada movimento ou estado nosso, sempre
que ocorre, é nossa mente, por que não vemos essa mente
quando o corpo da pessoa morre?
A mente está sempre presente. Você simplesmente
não a vê.
Mas se a mente está sempre presente, por que
não a vejo?
Você sonha?
É claro
Quando você sonha, é você?
Sim, sou eu.
E o que você está fazendo ou dizendo é
diferente de você?
Não, não é.
Mas se não é, então seu corpo é seu corpo real.
E esse corpo real é sua mente. E essa mente, através de
kalpas sem início nem fim, nunca variou. Ela nunca viveu ou
morreu, apareceu ou desapareceu, aumentou ou diminuiu. Ela
não é pura ou impura, boa ou má, passada ou futura. Não é
falsa ou verdadeira. Não é masculina ou feminina. Ela não
aparece como monge ou leigo, um noviço ou superior, um sábio
ou tolo, um buda ou mortal. Não se empenha por realização e
não sofre carma. Não tem energia ou forma. É como o espaço.
Você não pode possuí-la e você não pode perdê-la. Seus
movimentos não podem ser bloqueados por montanhas, rios ou
muros de pedras. Seus poderes perpétuos penetram a Montanha
dos Cinco Skandas (28) e atravessam o Rio de Samsara (29) . Nenhum carma pode
restringir esse corpo verdadeiro. Mas essa mente é sutil e
difícil de ver. Não é o mesmo que a mente sensual. Todos
querem ver essa mente, e aqueles que movem suas mãos e pés
devido a sua luz são tantos como os grãos de areia ao longo
do Ganges, mas quando você lhes pergunta eles não podem
explicar. A mente é para ser usada. São como bonecos. Por que
eles não vêm isso?
O buda disse que as pessoas estão iludidas. É
porque quando elas agem elas caem no Rio do Renascimento Sem
fim. E quando elas tentam sair elas somente afundam mais. E
tudo isso porque elas não vêm sua natureza. Se as pessoas não
estivessem iludidas, por que elas perguntariam sobre algo bem
defronte delas? Nenhuma delas entende o movimento de suas
mãos e pés. Buda não estava errado. As pessoas iludidas não
sabem quem elas são. Algo tão difícil de penetrar é conhecido
por budas e ninguém mais. Somente o sábio conhece essa mente,
essa mente chamada natureza dármica, essa mente chamada
liberação. Nem a vida nem a morte podem restringir essa
mente. Nada pode. Ela é também chamada O Tathagata Que Não
Pode Ser Parado (30) , O Incompreensível, O Eu Sagrado, O
Imortal, O Grande Sábio. Seus nomes variam não sua essência.
Os budas variam também, mas ninguém deixa sua própria
mente.
A capacidade da mente é sem limite, e suas
manifestações são sem fim. Ver formas com os seus olhos,
ouvir sons com os seus ouvidos, sentir odores com o seu
nariz, sentir sabores com sua língua, cada movimento ou
estado é sua mente. A cada momento, lá onde a linguagem não
pode ir, é a sua mente.
Dizem os sutras: "As formas de um tathagata são
sem fim, e assim é sua consciência." A variedade sem fim de
formas é devida à mente. Sua habilidade para distinguir
coisas, qualquer que seja seu movimento ou estado, é a
consciência da mente. Mas a mente não tem forma e sua
consciência não tem limite. Portanto diz-se que "as formas de
um tathagata são sem fim. E tal é a sua consciência."
O corpo material em quatro elementos (31) é um problema.
Um corpo material é sujeito a renascimento e morte. Mas o
corpo real existe sem existir, pois o corpo verdadeiro do
tathagata nunca muda. Os sutras dizem que "As pessoas deviam
perceber que a natureza búdica é algo que elas sempre
tiveram." Kashyapa (32) apenas percebeu sua natureza própria.
Nossa natureza é a mente. E a mente nossa
natureza. Essa natureza é o mesmo que a mente de todos os
budas. Budas do passado e do futuro somente transmitem essa
mente. Além dessa mente não há buda em parte alguma. Mas
pessoas iludidas não percebem que suas próprias mentes são o
buda. Elas continuam procurando fora. Elas nunca param de
invocar budas ou venerar budas e imaginar onde está o buda.
Não se entregue a tais ilusões. Simplesmente conheça sua
mente. Além da sua mente não há outro buda. Dizem os sutras
que "tudo que tem forma é ilusão". Eles também dizem que
"onde quer que você esteja, há um buda." Sua mente é o buda.
Não use um buda para venerar um buda.
Mesmo que repentinamente um buda ou bodhisattva
(33) aparecesse
diante de você não há necessidade de reverenciá-lo. Nossa
mente é vazia e não contém tal forma. Aqueles que se apegam
às aparências são demônios, eles desviam-se do caminho. Por
que venerar ilusões nascidas da mente? Aqueles que veneram
não sabem, e aqueles que sabem não veneram. Através da
veneração você está a serviço de demônios. Aviso-o disso
porque temo que você não esteja consciente disso. A natureza
básica de um buda não tem tal forma. Mantenha isso em mente,
mesmo que algo diferente apareça. Não o aceite, e não o tema,
e não duvide que a sua mente é a princípio pura. Onde poderia
haver espaço para tal formação? Além disso, o aparecimento de
espíritos, demônios ou seres divinos(34) não merece respeito nem
medo. Sua mente é basicamente vazia. Todas aparências são
ilusões. Não se apegue às aparências.
Se você vir um buda, Dharma ou bodhisattva (35) e prestar-lhe
respeito você relega-se ao reino dos mortais. Se você procura
entender diretamente não se apegue seja qual for a aparência,
que você terá sucesso. Não tenho mais conselhos. Dizem os
sutras que "todas as aparências são ilusões." Elas não têm
existência fixa, nenhuma forma constante. Elas são
impermanentes. Não se adere às aparências e você terá sua
mente unificada com Buda. Dizem os sutras que "aquilo que é
livre de todas as formas é o buda".
Mas por que não devemos venerar budas e
bodhisattvas?
Os demônios têm o poder de manifestarem-se.
Eles podem tomar a forma de bodhisattvas em todas as
situações. Mas eles são falsos. Nenhum deles é buda. O buda é
sua própria mente. Não desvie sua veneração.
Buddha é uma palavra sânscrita que
significa desperto, miraculosamente desperto.
Responder, perceber, arquear as sobrancelhas, piscar os
olhos, mover as mãos e pés, tudo é sua natureza
miraculosamente desperta. E essa natureza é a mente. E essa
mente é o buda. E o buda é o caminho. E o caminho é zen (36) . Mas a
palavra zen é uma das que permanece um quebra-cabeça
tanto para mortais como para sábios. Ver sua natureza é zen.
A menos que você veja sua natureza, não é zen.
Mesmo que você possa explicar milhares de
sutras e shastras (37) , a menos que você veja sua natureza
própria seu ensinamento é o de um mortal, não de um buda. O
Caminho verdadeiro é sublime. Ele não pode ser expresso
através de linguagem. Para que servem as escrituras? Mas
alguém que veja sua natureza própria acha o Caminho, mesmo
que ele não possa ler uma única palavra. Alguém que veja sua
natureza é um buda. E, uma vez que o corpo de um buda é
intrinsecamente puro e sem manchas, e tudo que ele diz é uma
expressão de sua mente, sendo basicamente vazio, um buda não
pode ser encontrado em palavras ou qualquer lugar do Cânone
Desdobrado em Doze.
O Caminho é basicamente perfeito. Ele não
precisa ser aperfeiçoado. O Caminho não tem formas ou som.
Ele é sutil e difícil de perceber. É como quando você bebe
água: você sabe quão quente ou fria está, mas você não pode
explicar aos outros. Daí que somente um tathagata sabe que
homens e deuses permanecem desatentos. A consciência dos
mortais é rasa. Uma vez que eles são apegados às aparências,
eles não estão conscientes de que suas mentes são vazias. E
por aterem-se erradamente à aparência das coisas eles perdem
o Caminho.
Se você sabe que tudo vem da mente, não se
apegue. Uma vez apegado, você não está consciente. Mas uma
vez que veja sua própria natureza, o cânone completo torna-se
tagarelice. Seus milhares de sutras e shastras apenas
acumulam-se numa mente clara. O entendimento acontece em
meias-palavras. Para que doutrinas?
A Verdade derradeira está além das palavras.
Doutrinas são palavras. Elas não são o Caminho. O Caminho é
sem palavras. Palavras são ilusões. Elas não são diferentes
das coisas que aparecem em seus sonhos à noite, sejam eles
palácios ou carruagens, parques sombreados ou pavilhões à
margem de lago. Não se deleite por tais coisas. Elas são
todas berços de renascimento. Mantenha isso em mente quando
você aproximar-se da morte. Não se apegue às aparências que
você vencerá todos os obstáculos. A menor hesitação e você
estará sob o julgo de demônios. Seu corpo verdadeiro é puro e
impenetrável. Mas devido às ilusões você não está ciente
disso. E por causa disso você sofre carma em vão. Onde quer
que você ache deleite, você acha escravidão. Mas uma vez que
você desperte para seus corpo e mente (38) originais você não está
mais ligado a apegos.
Todos que renunciam o transcendente pelo
mundano, em qualquer de suas miríades de formas, é um mortal.
Um buda é alguém que acha liberdade na boa e má fortuna. Tal
é seu poder que o carma não pode detê-lo. Não importando o
tipo de carma, um buda transforma-o. Céu e inferno (39) são nada para
ele. Mas a consciência de um mortal é obscura comparada com a
de um buda, que penetra tudo, por dentro e por fora.
Se você não tiver certeza, não aja. Uma vez que
você aja, você vagueia pelo nascimento e morte e lamenta não
ter refúgio. A pobreza e a miséria são criadas pelo
pensamento falso. Para entender essa mente você tem que agir
sem agir. Somente então você verá as coisas pela perspectiva
de um tathagata.
Mas, quando pela primeira vez você aventura-se
pelo Caminho, sua consciência não tem foco. Provavelmente
você verá toda sorte de cenas estranhas, como em sonhos. Mas
você não deve duvidar de que tais cenas vêem de sua própria
mente, e nenhum outro lugar.
Se, como num sonho, você vir uma luz mais
brilhante que o Sol, seus apegos remanescentes subitamente
terão fim e a natureza da realidade será revelada. Tal
ocorrência serve como base para a iluminação. Mas isso é algo
que somente você conhece. Você não pode explicar isso para os
outros.
Ou, se enquanto você estiver caminhando, parado
de pé, sentado ou deitado num bosque sereno, você vir uma
luz, não importando se ela é brilhante ou obscura, não conte
para os outros e não a focalize. É a luz de sua própria
natureza.
Ou, se enquanto você está caminhando, parado de
pé, sentado ou deitado na serenidade e escuridão da noite,
tudo parecer-se como se fosse dia, não se espante. É sua
própria natureza nas cercanias de revelar-se.
Mas, se enquanto você está sonhando à noite,
você vir a Lua e as estrelas em toda sua claridade, isso
significa que os trabalhos de sua mente estão perto de
terminar. Mas não conte aos outros. E se os seus sonhos não
forem claros, como se você estivesse caminhando na escuridão,
é porque sua mente está dissimulada por inquietação. Isso
também é algo que apenas você deve saber.
Se você vê a sua natureza, você não precisa ler
sutras ou invocar budas. Erudição e conhecimentos não somente
são inúteis mas também enevoam sua consciência. As doutrinas
só servem para apontar para a mente. Uma vez que você veja
sua mente, por que prestar atenção às doutrinas?
Para ir de mortal a buda, você tem que terminar
com o carma, alimentar sua consciência e aceitar o que a vida
traz. Se você está sempre ficando brabo você vai fazer sua
natureza virar contra o Caminho. Não há vantagem em
enganar-se. Os budas andam livremente pelo nascimento e
morte, aparecendo e desaparecendo à vontade. Eles não podem
ser refreados pelo carma ou dominados pelos demônios.
Uma vez que os mortais vejam sua natureza,
todos os apegos findam. A consciência não está escondida. Mas
você pode encontrá-la já. Somente agora. Se você realmente
quer encontrar o Caminho não se apegue a nada. Uma vez que
você terminar com o carma e alimentar sua consciência, todo
apego residual terminará. O entendimento vem naturalmente.
Você não tem que fazer esforço algum. Mas os fanáticos (40) não entendem o
que o Buda quis dizer. Quanto mais eles tentam, menos eles
entendem o ensinamento dos Sábios. Eles invocam budas e lêem
durante todo o dia. Mas eles continuam cegos à sua natureza
própria divina, e eles não escapam da Roda.
Um buda é uma pessoa sossegada. Ele não vai
atrás de fortuna e fama. No fim, para que servem tais coisas?
As pessoas que não vêem sua natureza e pensam que o Dharma é
ler sutras, invocar budas, estudar duramente por longo tempo,
praticar pela manhã e à noite, nunca deitar ou adquirir
conhecimentos, blasfemam o Dharma. Os budas do passado e do
futuro falam somente de ver sua natureza. Todas as práticas
são impermanentes. A não ser que elas vejam sua natureza, as
pessoas que dizem ter atingido a iluminação (41) completa são
mentirosas.
Dentre os dez grandes discípulos de Shakyamuni
(42) , Ananda (43) era o primeiro
em aprendizado. Mas ele não entendia Buda. Tudo que ele fazia
era estudar e memorizar. Os arhats (44) não entendem Buda. Tudo
que eles sabem são tantas práticas para a percepção que eles
são pegos pela armadilha de causa e efeito. Tal é o carma de
um mortal: nenhuma escapatória de nascimento e morte. Fazendo
o oposto do que ele pretendia tais pessoas blasfemam Buda.
Matá-las não seria errado. Dizem os sutras: "Uma vez que
icchantikas (45)
são incapazes de crer, matá-los não seria culposo, enquanto
as pessoas que crêem alcançam a buditude.
A menos que você veja sua natureza, você não
deve circular criticando a bondade alheia. Não há vantagem em
iludir-se. Bom e mau são distintos. Causa e efeito são
claros. Céu e inferno estão bem diante de seus olhos. Mas os
tolos não acreditam e vão direto ao inferno de escuridão sem
fim sem mesmo sabê-lo. O que os faz não acreditar é o peso de
seu carma. Eles são como cegos que não acreditam que haja tal
coisa como luz. Mesmo que você explique isso para eles, eles
ainda não acreditam, porque eles são cegos. Como eles
poderiam distinguir a luz?
O mesmo acontece com os tolos que terminam
dentre as ordens mais baixas da existência (46) ou dentre os pobres e
desprezados. Eles não podem viver e eles não podem morrer. E
apesar de seus sofrimentos, se você lhes pergunta, eles dizem
que são tão felizes como deuses. Todos os mortais, mesmo
aqueles que se pensam bem-nascidos, são igualmente
desconhecedores. Devido ao peso de seu carma tais tolos não
podem acreditar e não podem se verem livres.
As pessoas que vêem que suas mentes são o buda
não necessitam raspar a cabeça (47) . Os leigos são budas também. A menos que
vejam sua natureza, as pessoas que raspam a cabeça são
simplesmente fanáticos.
Mas, uma vez que leigos casados não desistem de
sexo, como eles podem tornarem-se budas?
Eu falo somente sobre ver sua natureza. Eu não
falo sobre simplesmente sexo porque você não vê sua natureza.
Uma vez que você veja sua natureza, sexo é basicamente
imaterial. Ver a natureza termina com o seu prazer no sexo.
Mesmo que alguns hábitos permaneçam eles não podem lhe causar
dano, pois sua natureza é essencialmente pura. Apesar de
habitar num corpo imaterial de quatro elementos, sua natureza
é basicamente pura. Ela não pode ser corrompida. Em seu corpo
verdadeiro não há sensação, nenhuma fome ou sede, nenhum
calor ou frio, nenhuma doença, amor ou apego, nenhum prazer
ou dor, nenhum bem ou mal, nenhuma penúria ou fartura,
nenhuma fraqueza ou força. Realmente, não há nada aqui. É
somente porque você apega-se a esse corpo imaterial que
coisas como fome e sede, calor e frio e doenças aparecem.
Uma vez que você pare de apegar-se e deixe as
coisas irem você será livre, mesmo de nascimento e morte.
Você transformará tudo. Você possuirá poderes espirituais (48) que não podem
ser obstruídos. E você estará em paz onde quer que esteja. Se
você duvida disso você nunca verá nada. É melhor ficar de
fora fazendo nada. Uma vez que você aja, você não pode evitar
o ciclo de nascimento e morte. Mas uma vez que você veja sua
natureza, você é um buda mesmo que você trabalhe como
açougueiro.
Mas os açougueiros criam carma carneando
animais. Como eles podem ser budas?
Falo somente sobre ver sua natureza. Não falo
sobre criar carma. Indiferentemente ao que fazemos, nosso
carma não se apega a nós. Por calpas sem começo nem fim, é
somente porque as pessoas não vêem sua natureza que elas
terminam no inferno. Uma vez que uma pessoa crie carma, ela
continua nascendo e morrendo. Mas, uma vez que a pessoa
perceba sua natureza original, ela pára de criar carma. Se
ela não vê sua natureza, invocar budas não vai liberá-la de
seu carma, indiferentemente de ser ou não um açougueiro. Mas
uma vez que ela veja sua natureza todas as dúvidas
dissipam-se. Mesmo o carma de um açougueiro não tem efeito
sobre essa pessoa.
Na Índia, os 27 patriarcas (49) somente transmitiram o
selo (50) da
mente. E a única razão de eu ter vindo para a China é
transmitir o ensinamento instantâneo do Mahayana (51) : Essa mente é o
buda. Eu não falo de preceitos, devoções ou práticas
ascéticas tais como mergulhar em água e fogo, pisar numa roda
de facas, comer uma refeição por dia ou nunca deitar. Esses
são ensinamentos fanáticos, provisórios. Uma vez que você
reconheça sua dinâmica, miraculosamente desperta natureza,
sua é a mente de todos os budas. Budas do passado e do futuro
somente falam sobre transmitir a mente. Nada mais eles
ensinam. Se alguém entende esse ensinamento, mesmo que seja
analfabeto, ele é um buda. Se você vê a sua mente
miraculosamente desperta, você nunca verá um buda, mesmo que
você quebre seu corpo em átomos(52) .
Buda é seu corpo verdadeiro, sua mente
original. Essa mente não tem forma ou características, não
tem causa ou efeito, tendões ou ossos. É como o espaço. Você
não pode agarrá-la. Não é a mente de materialistas ou
niilistas. Exceto um tathagata, ninguém mais - nenhum mortal,
nenhum ser iludido - pode penetrá-la.
Mas essa mente não está em algum lugar fora do
corpo material de quatro elementos. Sem essa mente nós não
podemos nos mover. O corpo não tem consciência. Como uma
planta ou pedra, o corpo não tem natureza. Então, como ele
move-se? É a mente que se move.
Linguagem e comportamento, percepção e
concepção são todas funções da mente em movimento. Todo
movimento é o movimento da mente. O movimento é sua função.
Não há mente separada do movimento, e não há movimento
separado da mente. Mas o movimento não é mente. E a mente não
é movimento. O movimento é basicamente sem mente. E a mente é
basicamente sem movimento. Mas o movimento não existe sem a
mente. E a mente não existe sem o movimento. A mente não
existe separadamente do movimento e o movimento não existe
separadamente da mente. O movimento é função da mente, e sua
função é seu movimento. Mesmo assim, a mente não se move nem
funciona, porque a essência de seu funcionamento é vazia e o
vazio é essencialmente sem movimento. O movimento é o mesmo
que a mente. E a mente é essencialmente sem movimento.
Conseqüentemente os sutras dizem-nos para mover
sem mover, viajar sem viajar, ver sem ver, rir sem rir, ouvir
sem ouvir, saber sem saber, ser feliz sem ser feliz, caminhar
sem caminhar, ficar de pé sem ficar de pé. E os sutras dizem:
"Vá além da linguagem, vá além do pensamento". Basicamente,
ver, ouvir e saber são completamente vazios. Sua raiva, sua
alegria ou dor são como de um boneco. Você pode procurar, mas
nada encontrará.
De acordo com os sutras, más ações resultam em
dificuldades e boas ações resultam em bênçãos. Gente braba
vai para o inferno e gente feliz vai para o céu. Mas uma vez
que você saiba que a natureza da raiva e da alegria é vazia e
você as deixa ir, você se livra de carma. Se você não vê sua
natureza, parafrasear sutras não ajuda. Eu poderia ir
adiante, mas esse breve sermão fará efeito.
Segue para O Sermão
do Despertar
Notas
8.
Mente. Um verso do Avatamsaka Sutra é
parafraseado aqui: "Os três reinos são só uma mente". O Sexto
Patriarca zen, Hui-Neng, distingue mente como o reino
e natureza como o senhor.
9.
Budas. O budismo não se limita a um buda. Ele
reconhece incontáveis budas. Além disso, todos têm a natureza
de buda. Há um buda em cada mundo, assim como há consciência
em cada pensamento. A única qualificação necessária para a
buditude é consciência completa.
10.
Sem definições. A ausência de definições na
transmissão do Dharma é um critério do zen budismo. Não
necessariamente significa sem palavras, mas sem restrições ao
modo de transmissão. Um gesto é tão bom como um discurso.
11.
Kalpa. O período entre a criação e a destruição do
mundo, um eon.
12.
Essa mente é o buda. É budismo Mahayana em poucas
palavras. Uma vez um monge perguntou a Ameixa Grande o que
Matsu lhe ensinou. Ameixa Grande disse "Essa mente é o buda."
O monge respondeu: Atualmente Matsu ensina Aquilo que não
é a mente não é o buda. A isso Ameixa Grande respondeu:
"Deixe-o fazer Aquilo que não é a mente não é o buda.
Vou bater em Essa mente é o buda." Quando ele ouviu
essa história, Matsu disse: "A ameixa está madura."
(Transmissão da Lâmpada, Capítulo 7).
13.
Iluminação. Bodi. Diz-se que a mente livre de ilusão é
cheia de luz, como a Lua quando não é obscurecida por nuvens.
Em vez de sofrer outro renascimento, a pessoa iluminada
atinge o nirvana, porque a iluminação põe fim ao carma. A
faculdade de ouvir é mais primitiva, mas a visão é a contumaz
fonte de sabedoria acerca de realidade; daí o uso de
metáforas visuais. Os sutras também falam de mundos nos quais
os budas ensinam através do olfato.
14.
Nirvana. Os tradutores chineses antigos tentaram umas
40 palavras chinesas antes de desistirem e simplesmente fazer
a transcrição desta palavra sânscrita, a qual significa
ausência de respiração. É também definida como
somente calma. Muitas pessoas igualam-no à morte, mas
para os budistas o nirvana significa ausência do significado
dialético da respiração. De acordo com Nagarjuna: "Aquilo que
é, quando sujeito ao carma, samsara, é, quando não mais
sujeito ao carma, nirvana."(Madhyamika Shastra, Capítulo 25,
verso 9).
15.
Natureza própria. Svabhava. Aquilo que é de si
próprio. A natureza própria de nada depende, tanto causal,
temporal ou espacialmente. A natureza própria não tem
aparência. Seu corpo é corpo nenhum. Não é um tipo de ego, e
não é algum tipo de substrato ou característica que exista
dentro ou fora dos fenômenos. A natureza própria é vazia de
todas as características, incluindo o vazio, mas ainda define
a realidade.
16.
Invocar budas. Invocar inclui tanto visualização de um
buda como repetição de um nome de buda. O objeto usual de tal
devoção é Amithaba, Buda do Infinito. Invocar de todo coração
Amithaba assegura aos devotos renascer no Paraíso Oriental,
onde a iluminação é dita ser muito mais fácil atingir do que
nesse mundo.
17.
Sutra. Significa soar, um sutra faz soar juntas as
palavras de um buda.
18.
Preceitos. A prática budista de moralidade inclui um
número de proibições: usualmente cinco para leigos,
aproximadamente 250 para monges e de 350 a 500 para
monjas.
19.
Ver sua natureza. Chamada de natureza própria,
natureza de buda ou natureza do Dharma, nossa natureza é
nosso corpo verdadeiro. É também nosso falso corpo. Nosso
corpo verdadeiro não é sujeito a nascimento ou morte,
aparecimento ou desaparecimento, mas o nosso corpo falso está
num estado de constante mudança. Vendo nossa natureza, nossa
natureza vê a si mesma, porque a ilusão e a consciência não
são diferentes. Para uma exposição sobre isso em português,
veja o livro de D.T. Suzuki A Doutrina Zen da
Não-Mente.
20.
Vida e morte. Shakyamuni deixou o lar para achar uma
saída do ciclo interminável de vida e morte. Todos que seguem
Buda devem fazer o mesmo. Quando chegou o momento de
transmitir o robe e a tigela da linhagem zen, Hui-jin, o
Quinto Patriarca zen, reuniu seus discípulos e disse-lhes:
"Nada é mais importante que vida e morte. Mas em vez de
procurar uma saída para o Oceano de Vida e Morte, vocês
passam todo o seu tempo procurando maneiras de acumular
méritos. Se vocês são cegos para sua própria natureza, para
que serve o mérito? Usem sua sabedoria, a prajna natureza de
suas próprias mentes. De todo o seu ser, vão escrever um
poema". (Sutra do Sexto Patriarca, Capítulo 1).
21.
Sutra Desdobrado em Doze. As doze divisões das
escrituras reconhecidas pelo budismo Mahayana. Essas
divisões, que são feitas para separar objetos diferentes e
formas literárias, incluem sutras, sermões de Buda;
geyas, repetições em versos dos sutras; gathas,
cânticos e poemas; nidanas, narrativas históricas;
jatacas, histórias de budas anteriores;
itivrittakas, histórias das vidas passadas dos
discípulos; adbhutadharma, milagres de Buda;
avadana, alegorias; upadesa, discussões da
doutrina; udana, postulados não solicitados da
doutrina; vaipulya, discursos estendidos; e
vyakana, profecias de iluminação.
22.
Roda de Nascimentos e Mortes. O renascer sem fim do
qual somente budas escapam.
23.
Boa Estrela. No Capítulo 23 do Nirvana Sutra
diz-se que Boa Estrela é um dos três filhos de Shakyamuni. E,
tal como seu irmão Rahula, tornou-se um monge. No fim, ele
era capaz de recitar e explicar inteiramente a literatura
sagrada de seu tempo e pensou que tinha atingido o quarto
reino celestial de dhyana no reino da forma. E quando o
suporte cármico por tal feito exauriu-se, ele foi
transportado fisicamente para o inferno do sofrimento sem
fim.
24.
Sutras ou shastras. Sutras são discursos dos budas.
Shastras são os discursos dos discípulos proeminentes.
25.
Branco do preto. Referência à tentativa de ver o
budismo como confucionismo ou taoismo, animado pelo ensaio de
Hui-lin, escrito em 435, no qual ele declarou o budismo e o
confucionismo igualmente verdadeiros e nos quais ele negou a
operação do carma após a morte.
26.
Demônios. Os budistas, como os seguidores de outras
fés, reconhecem uma categoria de ser cujo único propósito é
desvirtuar budas em potencial. Essas legiões de demônios são
lideradas por Mara, a quem Buda derrotou na noite de sua
iluminação.
27.
Carma. O equivalente moral da lei física de causa e
efeito, o carma inclui ações do corpo, da língua e da mente.
Tais ações giram a Roda de Renascimento e resultam em
sofrimento. Mesmo quando uma ação é boa ela gira a Roda. O
objetivo da prática budista é escapar da roda, por um fim ao
Carma, agir sem agir, não atingir um renascimento melhor.
28.
Skandas. Palavra sânscrita que significa a
constituição da mente ou o corpo mental das pessoas: forma,
sensação, percepção, impulso e consciência.
29.
Samsara. Palavra sânscrita que significa fluxo
constante, o ciclo de mortalidade, o fluxo sem fim de
nascimento e morte.
30.
O Tathagata. Uma palavra para designar um buda; o nome
pelo qual um buda refere-se a si mesmo. Um buda é um
desperto. Um Tathagata é uma manifestação no mundo de um
buda, seu corpo de transformação, em oposição a seu corpo de
desfrute ou seu corpo real. Um Tathagata ensina o Dharma.
31.
Quatro elementos. Os quatro elementos constituintes de
toda matéria, incluindo corpo material: terra, água, fogo e
ar.
32.
Kashyapa. Também chamado Mahakashyapa, ou o Grande
Kashyapa. Ele era um dos mais proeminentes discípulos e lhe é
creditado ter sido Primeiro Patriarca zen na Índia. Quando
Buda segurou a flor, Kashyapa sorriu em resposta, e a
transmissão da mente zen começou.
33.
Bodhisattva. O ideal Mahayana. O bodhisattva
condiciona sua própria liberação à de outros seres, enquanto
o arhat, ideal Hinayana, preocupa-se com procurar sua própria
salvação. Em vez de encolher a mente em vacuidade, como o
arhat faz, o bodhisattva expande-a ao infinito. É porque ele
percebe que todos os seres têm a mesma natureza de buda.
34.
Espíritos, demônios ou seres divinos. Espíritos são
seres sem corpo. Os demônios incluem vários deuses do céu
(devas), do mar (nagas) e da terra (yakshas). Os seres
divinos incluem Indra, senhor dos 33 reinos celestes, e
Brahma, senhor da criação.
35.
Um buda, um Dharma ou um bodhisattva. Constituem o
Refúgio Budista, ou três jóias. Um Dharma é o ensinamento de
um buda. Aqueles que seguem tal ensinamento formam a ordem
dos monges, ou, na tradição Mahayana, bodhisattvas.
36.
Zen. Palavra sânscrita que significa meditação,
primeiramente utilizada para transliterar dhyana. É
atribuído a Bodhidharma liberar o zen da almofada de
meditação, usando o termo referindo-se à mente cotidiana que
vai em frente, a mente que senta sem sentar e que age sem
agir.
37.
Milhares de sutras e shastras. Um catálogo do Cânone
Budista Chinês, ou Tripitaka, feito no início do Séc. VI
lista 2.213 trabalhos distintos. Cerca de 1.600 deles eram
sutras. Muitos sutras foram adicionados ao Tripitaka desde
então, mas muitos foram perdidos. O Cânone atual tem 1.662
trabalhos.
38.
Corpo e mente. O corpo de quatro elementos e a mente
de cinco agregados designa o eu genericamente, mas
Bodhidharma está referindo-se ao eu búdico.
39. Céu e inferno. Os budistas
reconhecem quatro reinos celestes da forma, os quais são
divididos em 16 ou 18 reinos celestes, e quatro sem forma. Do
lado oposto da Roda existem oito infernos quentes e oito
infernos frios, cada um dos quais tem quatro infernos
adjacentes. Há também um número de infernos especais, tais
como o inferno de escuridão e sofrimento sem fim.
40.
Fanáticos. Dentre os seguidores das várias seitas
budistas e não budistas, aqueles mais sujeitos a degeneração
como fanáticos foram aqueles que engajaram em ascetismo e
auto-tortura ou aqueles que seguiram literalmente e não o
espírito do Dharma.
41. Insuperável e completa
iluminação. Anuttara-samyak-sambodhi. O objetivo dos
bodhisattvas. Veja o início do Sutra do Diamante.
42.
Shakyamuni. Shakya era o nome do clã de Buda.
Muni significa santo. O nome de sua família era
Gautama, e seu nome pessoal era Siddharta. As datas exatas
variam, mas o consenso é aproximadamente de 557 a 487
A.C.
43.
Ananda. Meio-irmão de Shakyamuni. Ele nasceu na noite
da iluminação de Buda. Vinte e cinco anos após entrou na
ordem como atendente pessoal de Buda. Após o nirvana de Buda,
ele repetiu de memória os sermões de Buda no Primeiro
Concílio.
44. Arhat. Liberar a si de
renascimento é o objetivo dos seguidores do Hinayana, ou
Pequeno Veículo. Um arhat está além das paixões, mas também
está além da compaixão. Ele não percebe que todos os mortais
compartilham a mesma natureza e que não há budas a não ser
que todos sejam budas.
45.
Icchantikas. Uma classe de seres preocupados tão
exclusivamente com gratificação dos sentidos que a crença
religiosa está além deles. Eles quebram os preceitos e
recusam-se a arrependerem-se. Uma tradução chinesa antiga do
Sutra do Nirvana nega que os icchantikas possuíssem a
natureza de buda. Uma vez que a proibição budista de matar
intenciona evitar matar alguém capaz de atingir a buditude,
matar icchantikas era, pelo menos em teoria, isento de culpa.
Uma tradução mais recente do Sutra do Nirvana, entretanto,
retificou esta noção, dizendo que mesmo icchantikas têm
natureza de buda.
46.
Mais baixas ordens da existência. Bestas, fantasmas
famintos e sofredores no inferno.
47.
Raspar suas cabeças. Quando Shakyamuni deixou o
palácio do pai no meio da noite para começar sua procura por
iluminação, ele cortou com sua espada seu cabelo, que estava
na altura dos ombros. O cabelo curto que restou formava
cachos no sentido do relógio que nunca precisavam ser
cortados novamente. Mais tarde, os membros da Ordem Budista
começaram a raspar suas cabeças para distinguirem-se de
outras seitas.
48.
Poderes espirituais. Os budistas reconhecem seis de
tais poderes: a habilidade de ver todas as formas; a
habilidade de ouvir todos os sons; a habilidade de saber os
pensamentos dos outros; a habilidade de estarem em qualquer
lugar ou fazer qualquer coisa a vontade; e a habilidade de
conhecer o fim do renascimento.
49.
Vinte e sete patriarcas. Kashyapa foi o Primeiro
Patriarca da linhagem zen. Ananda foi o segundo. Prajnatara
foi o vigésimo sétimo e Bodhidharma o vigésimo oitavo.
Bodhidharma foi também o Primeiro Patriarca zen na China.
50.
Selo. A transmissão da mente zen deixa uma igualdade
perfeita, a qual pode sempre ser conferida com a coisa
verdadeira, a qual leva tanto tempo e faz tanto som como
afixar um selo.
51.
Mahayana. Maha significa grande, e yana
significa veículo. A forma predominante de budismo no
nordeste, centro e leste da Ásia. O Theravada (Ensinamento
dos Anciões) é a forma predominante do sul e sudeste da Ásia.
A palavra Hinayana é também utilizada para referir-se ao
Theravada.
52.
Átomos. Os antigos budistas Sarvastivadins reconheciam
partículas subatômicas chamadas parama-anu, as quais podem
somente ser conhecidas através da meditação. Sete destas
partículas fazem um átomo, e sete átomos fazem uma molécula,
a qual é perceptível somente pelos olhos de um bodhisattva.
Os sarvastivadins declaram que o corpo de uma pessoas é feito
de 84.000 átomos (o número 84.000 era também utilizado para
significar incontável).
Este texto foi traduzido para o português por
Shinzen,
que ofereceu sua tradução como presente ao Lama Samten
na sua ordenação em 14 de dezembro de 1996.
texto gentilmente cedido pelo site
www.bodisatva.org.br
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