O Sermão do Despertar
A essência do Caminho é desapego. E o objetivo
daqueles que praticam é o desapego das aparências. Dizem os
sutras: "Desapego é iluminação porque nega as aparências." A
buditude significa consciência. Os mortais cujas mentes são
conscientes alcançam o Caminho da Iluminação e são portanto
chamados budas. Dizem os sutras: "Aqueles que se libertam de
todas as aparências são chamados de budas." A aparência da
aparência como não aparência não pode ser vista visualmente
mas pode somente ser conhecida através da sabedoria. Quem
quer que ouça e acredite neste ensinamento embarca no grande
veículo (53) e
deixa os três reinos.
Os três reinos são a avidez, a raiva e a
ilusão. Deixar os três reinos significa ir da avidez, raiva e
ilusão de volta para a moralidade, meditação e sabedoria. A
avidez, a raiva e a ilusão não têm natureza própria. Dependem
dos mortais. E qualquer um capaz de reflexão é levado a ver
que a natureza da avidez, da raiva e da ilusão é a natureza
de buda. Além da avidez, raiva e ilusão não há outra natureza
de buda. Dizem os sutras: "Os budas só são budas enquanto
vivem com os três venenos e alimentam-se do puro Dharma." Os
três venenos são avidez, raiva e ilusão.
O grande veículo é o maior dos veículos. É o
meio de transporte dos bodhisattvas que usam tudo sem usar
coisa alguma e que viajam todo dia sem viajar. Tal é o
veículo dos budas. Dizem os sutras: "Nenhum veículo é o
veículo dos budas."
Quem quer que perceba que os seis sentidos (54) não são reais,
que os cinco agregados (55) são ficção, e que tais coisas são
localizadas em qualquer lugar do corpo, entende a linguagem
dos budas. Dizem os sutras: "A caverna dos cinco agregados é
a sala do zen. A abertura do olho interno é a porta do Grande
Veículo." O que poderia ser mais claro?
Não pensar sobre coisa alguma é zen. Uma vez
que você saiba disso, caminhar, ficar de pé, sentar-se ou
deitar-se, tudo que você fizer é zen. Saber que a mente é
vazia é ver o buda. Os budas das dez direções (56) não têm mente. Ver
mente nenhuma é ver o buda.
Desistir de si mesmo sem lamentar-se é a grande
caridade. Transcender o movimento e a imobilidade é a mais
alta meditação. Os mortais permanecem em movimento, e os
arhats permanecem imóveis (57) . Mas a meditação ultrapassa tanto a
meditação dos mortais como a dos arhats. As pessoas que
alcançam tal entendimento libertam-se de todas as aparências
e curam todas as doenças sem tratamento. Tal é o poder do
grande zen.
Usar a mente para procurar a realidade é
ilusão. Não usar a mente para olhar a realidade é
consciência. Libertar-se das palavras é liberação. Permanecer
não corrompido pelo pó da sensação resguarda o Dharma.
Transcender vida e morte é deixar o lar (58) . Não sofrer outra
existência é alcançar o caminho. Não criar ilusão é
iluminação. Não comprometer-se com ignorância é sabedoria.
Nenhuma aflição é nirvana. E nenhum aparecimento da mente é a
outra margem.
Quando você está iludido, esta margem existe.
Quando você desperta, ela não existe. Os mortais permanecem
nesta margem. Mas aqueles que descobrem o maior de todos os
veículos não ficam nem nesta margem nem na outra margem. São
capazes de deixar ambas as margens. Aqueles que vêm a outra
margem como diferente desta margem não entendem o zen.
A ilusão significa mortalidade. E a consciência
significa buditude. Elas não são a mesma coisa. E elas não
são diferentes. É porque as pessoas distinguem ilusão de
consciência. Quando estamos iludidos há um mundo do qual
escapar. Quando somos conscientes, não há do que escapar.
À luz do Dharma imparcial, os mortais não
parecem diferentes dos sábios. Os sutras dizem que o Dharma
imparcial é algo que os mortais não podem penetrar e os
sábios não podem praticar. O Dharma imparcial é praticado
somente por grandes bodhisattvas e budas. Ver a vida como
diferente da morte ou o movimento como diferente da
imobilidade é ser parcial. Ser imparcial significa ver o
sofrimento como não diferente de nirvana, pois a natureza de
ambos é o vazio. Imaginando que estão pondo fim ao sofrimento
e entrando em nirvana os arhats acabam caindo na armadilha do
nirvana. Mas os bodhisattvas sabem que o sofrimento é
essencialmente vazio. É por permanecerem no vazio eles
permanecem no nirvana. O nirvana significa nem nascimento e
nem morte. É além de nascimento e morte e além do nirvana.
Quando a mente pára de mover-se ela entra em nirvana. O
nirvana é uma mente vazia. Onde não existem ilusões, os budas
alcançam o nirvana. Onde não existem aflições, os
bodhisattvas entram no local da iluminação (59) .
Um lugar desabitado (60) é aquele sem avidez,
raiva ou ilusão. A avidez é o reino do desejo, a raiva é o
reino da forma e a ilusão é o reino sem forma. Quando um
pensamento começa, você entra nos três reinos. Quando um
pensamento termina, você deixa os três reinos. O começo ou
término dos três reinos, a existência ou não existência de
qualquer coisa depende da mente. Isso se aplica a tudo, mesmo
a objetos inanimados como pau e pedra.
Quem quer que saiba que a mente é uma ficção
desprovida de algo real sabe que sua própria mente não existe
nem não existe. Os mortais criam a mente, proclamando que ela
existe. E os arhats negam a mente, proclamando que ela não
existe. Mas os bodhisattvas e budas nem criam nem negam a
mente. A isso se diz que a mente não existe nem não existe. A
mente que não existe nem não existe é chamada Caminho do
Meio. (61) .
Se você usa sua mente para estudar a realidade,
você não vai entender nem sua mente nem a realidade. Se você
estudar a realidade sem usar sua mente, você entenderá ambas.
Aqueles que não entendem, não entendem entender. E aqueles
que entendem, entendem o não entender. As pessoas providas da
visão verdadeira (62) sabem que a mente é vazia. Elas
transcendem tanto o entender e o não entender. A ausência
tanto de entendimento como não entendimento é o verdadeiro
entendimento.
Vista com a verdadeira visão a forma não é
simplesmente forma, pois a forma depende da mente. E a mente
não é simplesmente mente, pois a mente depende da forma.
Mente e forma criam e negam uma à outra. Aquilo que existe em
relação àquilo que não existe. E aquilo que não existe não
existe em relação àquilo que existe. Isso é visão verdadeira.
Por meios de tal visão nada é visto e nada é não visto. Tal
visão alcança totalmente as dez direções sem ver: porque nada
é visto; porque não ver é ver; porque ver é não ver. O que os
mortais vêm são ilusões. A visão verdadeira é desprendida de
ver.
A mente e o mundo são opostos, e a visão nasce
onde elas se encontram. Quando sua mente não se revolve
internamente, o mundo não desponta exteriormente. Quando o
mundo e a mente estão ambos transparentes essa é a verdadeira
visão. E tal entendimento é o verdadeiro entendimento.
Nada ver é perceber o caminho, e nada entender
é saber o Dharma, pois ver não é ver nem não ver e porque
entender não é entender nem não entender. Ver sem ver é visão
verdadeira. Entender sem entender é entender verdadeiro.
A verdadeira visão não é somente ver vendo. É
também ver não vendo. E o verdadeiro entender não é somente
entender o entendimento. É também entender o não
entendimento. Se você entende qualquer coisa, você não
entende. Somente quando você nada entende é o verdadeiro
entender. Entender não é entender nem não entender.
Dizem os sutras: "Não abandonar a sabedoria é
estupidez." Quando a mente não existe, entender e não
entender são ambos verdadeiros. Quando a mente existe,
entender e não entender são ambos falsos.
Quando você entende, a realidade depende de
você. Quando você não entende, você depende da realidade.
Quando a realidade depende de você, aquilo que não é real
torna-se real. Quando você depende da realidade, aquilo que é
real torna-se falso. Quando você depende da realidade, tudo é
falso. Quando a realidade depende de você, tudo é verdadeiro.
Assim, o sábio não usa sua mente para procurar por realidade,
ou realidade para procurar sua mente ou sua mente para
procurar sua mente, ou realidade para procurar realidade. Sua
mente não desponta realidade. E a realidade não desponta sua
mente. E porque tanto sua mente como a realidade estão
imóveis, ele está sempre em samadi. (63)
Quando a mente mortal aparece, a buditude
desaparece. Quando a mente mortal desaparece, a buditude
aparece. Quando a mente aparece, a realidade desaparece.
Quando a mente desaparece, a realidade aparece. Quem quer que
saiba que nada depende de coisa alguma encontrou o Caminho. E
quem quer que saiba que a mente de nada depende está sempre
no local da iluminação.
Quando você não entende, você está errado.
Quando você entende, você não está errado. É porque a
natureza do erro é vazia. Quando você não entende, o certo
parece errado. Quando você entende, o errado não é errado,
pois o erro não existe. Dizem os sutras: "Nada tem uma
natureza própria". Aja. Não faça perguntas. Quando você faz
perguntas, você está errado. O erro é resultado de
questionamento. Quando você alcança tal entendimento, as más
ações de suas vidas passadas são varridas. Quando você está
iludido, os seis sentidos e cinco trevas são construções de
sofrimento e mortalidade. Quando você desperta, os seis
sentidos e cinco trevas (64) são construções de nirvana e
imortalidade.
Alguém que procure o caminho não olha além de
si. Sabe que a mente é o Caminho. Mas quando acha a mente,
nada acha. E quando a pessoa acha o Caminho, nada acha. Se
você pensa que você pode usar a mente para achar o caminho,
você está iludido. Quando você está iludido, a buditude
existe. Quando você está consciente, ela não existe. É porque
a consciência é buditude.
Se você está procurando pelo caminho, o caminho
não aparecerá até que seu corpo desapareça. É como descascar
uma árvore. Esse corpo cármico sofre mudanças constantes. Não
tem realidade fixa. Pratique de acordo com seus pensamentos.
Não odeie a vida e a morte e não ame a vida e a morte.
Mantenha cada um de seus pensamentos livre de ilusão, que em
vida você testemunhará o início do nirvana (65) , e na morte você vai
experimentar a garantia de não renascimento. (66)
Ver a forma mas não ser corrompido pela forma e
ouvir o som mas não ser corrompido pelo som é liberação.
Olhos que não são apegados à forma são os Portais do Zen.
Ouvidos que não são apegados ao som são também os Portais do
Zen. Resumindo, aqueles que percebem a existência e natureza
dos fenômenos e permanecem desapegados são liberados. Aqueles
que percebem a aparência externa dos fenômenos estão a sua
mercê. Liberação significa não estar sujeito à aflição. Não
há outra liberação. Quando você sabe como olhar para a forma,
forma não origina a mente e a mente não origina forma. Forma
e mente são ambas puras.
Quando as ilusões não estão presentes, a mente
é a terra dos budas. Quando as ilusões estão presentes, a
mente é o inferno. Os mortais criam ilusões. E através do uso
da mente para dar origem à mente eles sempre encontram-se no
inferno. Os bodhisattvas vêm através das ilusões. E por não
usarem a mente para gerar mente eles sempre encontram-se na
terra dos budas. Se você não usa sua mente para criar mente,
cada estado da mente é vazio e cada pensamento imóvel. Você
vai de uma terra de buda (67) para outra. Se você usa sua mente para
criar mente, cada estado da mente está perturbado e cada
pensamento está em movimento. Você vai de um inferno para o
seguinte. Quando um pensamento nasce, há bom carma e mau
carma, céu e inferno. Quando nenhum pensamento nasce, não há
bom carma ou mau carma, não há céu ou inferno.
O corpo não existe nem não existe. Portanto, a
existência como mortal e a não existência como sábio são
concepções com as quais um sábio nada tem a ver. Seu coração
é vazio e espaçoso como o céu.
O que se segue é testemunhado no caminho.
Está além do alcance de arhats e mortais.
Quando a mente alcança o nirvana, você não vê o
nirvana, pois essa mente é o nirvana. Se você vê o nirvana em
algum lugar fora da mente, você está iludindo-se.
Cada sofrimento é uma semente de buda, devido
ao sofrimento impelir os mortais a buscar a sabedoria. Mas
você apenas pode dizer que o sofrimento gera a buditude. Você
não pode dizer que o sofrimento é buditude. Seu corpo e mente
são o solo. O sofrimento é a semente, a sabedoria é o broto e
a buditude o fruto.
O buda está para a mente assim como a
fragrância está para a árvore. O buda é proveniente de uma
mente livre de sofrimento, tal como uma fragrância provém de
uma árvore que não tem podres. Não há fragrância sem a árvore
e nenhum buda sem a mente. Se há fragrância sem árvore, é uma
fragrância diferente. Se há buda sem sua mente, é um buda
diferente.
Quando os três venenos estão presentes em sua
mente, você vive numa terra imunda. Quando os três venenos
estão ausentes de sua mente, você vive numa terra de pureza.
Dizem os sutras: "Se você enche uma terra de impureza e
imundície, jamais um buda aparecerá." Impureza e imundície
referem-se à ilusão e outros venenos. Um buda refere-se a uma
mente pura e desperta.
Não há linguagem que não seja o Dharma. Falar o
dia inteiro sem dizer coisa alguma é o caminho. Ficar
silencioso o dia inteiro e ainda dizer algo não é o caminho.
Portanto, a fala do tathagata não depende do silêncio, nem o
seu silêncio depende da fala, nem sua fala existe em separado
de seu silêncio. Aqueles que entendem tanto fala como
silêncio estão em samadi. Se você fala quando você sabe, sua
fala é livre. Se você fica silencioso quando você não sabe,
seu silêncio está amarrado. Se a fala não é apegada às
aparências, ela é livre. Se o silêncio é apegado às
aparências, está amarrado. A linguagem é essencialmente
livre. Nada tem a ver com apego. E o apego nada tem a ver com
a linguagem.
A realidade não tem altos e baixos. Se você vê
altos e baixos, não é real. Uma balsa (68) não é real. Mas um
passageiro da balsa é. Uma pessoa que usa tal balsa pode
cruzar aquilo que não é real. É por isso que é real.
De acordo com o mundo existe macho e fêmea,
rico e pobre. De acordo com o caminho não há macho e fêmea,
não há rico ou pobre. Quando a deusa descobre o caminho, ela
não muda de sexo. Quando o garoto apunhalado (69) despertou para a
verdade, ele não mudou seu status. Livres de sexo e status,
eles compartilham a mesma aparência básica. A deusa não teve
sucesso por 12 anos em sua busca por feminilidade. Procurar
por 12 anos pela hombridade de alguém seria igualmente
infrutífero. Os 12 anos referem-se as 12 entradas (70) .
Sem a mente não há buda. Sem o buda não há
mente. Da mesma maneira, sem água não há gelo, e sem gelo não
há água. Quem quer que fale a respeito de deixar a mente não
vai muito longe. Não se apegue às aparências da mente. Dizem
os sutras: "Quando você não vê aparências, você vê o buda." É
isso que significa ser livre das aparências da mente.
Sem a mente não há buda significa que o
buda vem da mente. A mente gera o buda. Mas embora o buda
provenha da mente, a mente não provém de buda, tal como um
peixe provém da água, mas a água não provém do peixe. Quem
quer que queira ver o peixe vê a água antes de ver o peixe. E
quem que queira ver um buda vê a mente antes que veja o buda.
Uma vez que você veja o peixe, você esquece-se da água. E uma
vez que que você veja o buda, você esquece-se a respeito da
mente, a mente confundirá, assim como água o confundirá se
você não se esquece a respeito dela.
A mortalidade e a buditude são como água e
gelo. Ser afligido pelos três venenos é mortalidade. Ser
purificado pelos três alívios (71) é buditude. Aquilo que se congela no
inverno derrete-se no verão. Elimine o gelo e não há mais
água. Livre-se da mortalidade e não há mais buditude.
Claramente, a natureza do gelo é a natureza da água. E a
natureza da água é a natureza do gelo. E a natureza da
mortalidade é a natureza da buditude. A mortalidade e a
buditude compartilham a mesma natureza tal como wutou
e futzu (72) compartilham a mesma raiz mas não a mesma
estação. É somente por causa da ilusão das diferenças que nós
temos as palavras mortalidade e buditude.
Quando uma serpente torna-se um dragão ela não muda suas
escamas. E quando um mortal torna-se um sábio, ele não muda
sua face. Ele conhece sua mente através da sabedoria interna
e cuida de seu corpo através da disciplina externa.
Os mortais liberam budas e os budas liberam
mortais. Imparcialidade significa isso. Os mortais liberam
budas porque a aflição cria consciência. E os budas liberam
mortais porque a consciência nega a aflição. Não há como não
haver aflição. E não há como não haver consciência. Se não
fôssemos pela aflição, nada haveria para criar consciência.
Se não fôssemos pela consciência, nada haveria para negar
aflição. Quando você está iludido, os budas liberam mortais.
Quando você está consciente, os mortais liberam budas. Os
budas não se tornam budas por si mesmos. Eles são liberados
por mortais. Os budas consideram a ilusão como seu pai e a
avidez como sua mãe. Ilusão e avidez são palavras diferentes
para mortalidade. A ilusão e a avidez são como a mão esquerda
e a mão direita. Não há outra diferença.
Quando você está iludido, você está nesta
margem. Quando você está consciente, você está na outra
margem. Mas uma vez que você veja que sua mente é vazia e
você não veja aparências, você está além da ilusão e
consciência. E uma vez que você esteja além da ilusão e
consciência, a outra margem não existe. O tathagata não está
nesta margem ou na outra margem. Ele não está na correnteza.
Os arhats estão na correnteza e os mortais estão nesta
margem. Na outra margem está a buditude.
Os budas têm três corpos (73) : um corpo de
transformação, um corpo de recompensa e um corpo real. O
corpo de transformação é também chamado de o corpo de
encarnação. O corpo de transformação aparece quando os
mortais fazem boas ações, o corpo de recompensa quando
cultivam sabedoria, e o corpo real quando eles ficam
conscientes do sublime. O corpo de transformação é aquele que
você vê voando em todas as direções resgatando os outros onde
quer que eles estejam. O corpo de recompensa põe fim às
dúvidas. A frase "a grande iluminação ocorreu nos Himalaias"
(74)
repentinamente torna-se verdadeira. O corpo real não faz ou
diz coisa alguma. Permanece perfeitamente imóvel. Na verdade,
não há sequer um corpo de buda, muito menos três. Essa
conversa de três corpos é baseada simplesmente no
entendimento humano, o qual pode ser oco, moderado ou
profundo.
As pessoas de entendimento oco imaginam que
elas estão acumulando bênçãos e confundem o corpo de
transformação como sendo buda. As pessoas de entendimento
moderado imaginam que elas estão pondo fim ao sofrimento e
confundem o corpo de recompensa como sendo buda. E as pessoas
de entendimento profundo imaginam que elas estão
experimentando a buditude e confundem o corpo real de buda
com o buda. Mas as pessoas com o entendimento mais profundo
olham dentro, não se distraindo. Uma vez que uma mente clara
é o buda, elas atingem o entendimento de um buda sem usar a
mente. Os três corpos, como todas as outras coisa, são
inatingíveis e indescritíveis. A mente desimpedida alcança o
Caminho. Dizem os sutras: "Os budas não rezam o Dharma. Eles
não liberam mortais. Eles não experimentam a buditude." É
isso que eu quero dizer.
Os indivíduos criam carma. O carma não cria
indivíduos. Eles criam carma nesta vida e recebem sua
recompensa na próxima. Eles nunca escapam. Somente alguém que
seja perfeito não cria carma nessa vida e não recebe
recompensa. Dizem os sutras: "Quem não cria carma obtém o
Dharma." Este não é um dito vazio. Você pode criar carma, mas
você não pode criar uma pessoa. Quando você cria carma, você
renasce junto com seu carma. Quando você não cria carma, você
desaparece juntamente com seu carma. Portanto, como o carma
dependente do indivíduo e o indivíduo dependente do carma, se
o indivíduo não cria carma, o carma não adere nele. Da mesma
maneira, "Uma pessoa pode ampliar o caminho. O caminho não
pode ampliar uma pessoa." (75)
Os mortais continuam criando carma e
erradamente insistem que não há retribuição. Mas podem eles
negar o sofrimento? Podem eles negar que o que o presente
estado da mente semeia o próximo estado da mente colhe? Como
elas podem escapar? Mas se o presente estado da mente nada
semeia, o próximo estado da mente nada colhe. Não faça
concepções erradas.
Dizem os sutras: "Apesar de acreditar nos
budas, as pessoas que imaginam que os budas praticam
austeridades não são budistas. O mesmo aplica-se àqueles que
imaginam que os budas são sujeitos a recompensas de riqueza
ou pobreza. Eles são icchantikas. Eles são incapazes de
acreditar."
Quem entende os ensinamentos dos sábios é um
sábio. Quem entende os ensinamentos dos mortais é um mortal.
Um mortal que possa desistir do ensinamento dos mortais e
seguir os ensinamentos dos sábios torna-se um sábio. Mas os
tolos deste mundo preferem procurar por sábios lá longe. Eles
não acreditam que a sabedoria de suas próprias mentes é o
sábio. Dizem os sutras: "Não recite este sutra em meio a
homens de nenhum entendimento." E dizem os sutras: "A mente é
o ensinamento." Mas as pessoas de nenhum entendimento não
acreditam nas suas próprias mentes nem que entendendo esse
ensinamento elas podem tornarem-se sábias. Elas preferem
procurar conhecimento distante e esperar por coisas no
espaço, imagens de buda, luz, incenso e cores. Elas caem na
reza para a falsidade e perdem suas mentes na insanidade.
Dizem os sutras: "Quando você vê que todas as
aparências são nenhuma aparência, você vê o tathagata." A
miríade de portas para a verdade provêem todas da mente.
Quando as aparências da mente são tão transparentes como o
espaço, elas se vão.
Nossos sofrimentos sem fim são as raízes da
doença. Quando os mortais estão vivos, preocupam-se com a
morte. Quando estão satisfeitos, preocupam-se com a fome. Sua
é a Grande Incerteza. Mas os sábios não levam em consideração
o passado. E eles não se preocupam com o futuro. Nem eles se
aderem ao presente. E de momento a momento eles seguem o
Caminho. Se você não despertou para esta grande verdade, você
faria melhor procurando um professor na terra ou nos céus.
Não complique sua própria deficiência.
Segue para O Sermão
da Grande Descoberta
Notas
53. Grande Veículo. O Mahayana. A mente.
Somente a mente pode levá-lo a todos os lugares.
54. Seis sentidos. Visão, audição,
olfato, gustação, tato e pensamento.
55. Cinco agregados. Os cinco skandas, ou
constituintes da mente: Forma, sensação, percepção, impulso e
consciência.
56. Dez direções. Os oito pontos da
bússola, mais o zênite e o nadir.
57. Arhats permanecem imóveis. O arhat
alcança o quarto e final fruto do budismo Hinayana, liberação
da paixão, pelo cultivo da imobilidade.
58. Deixar o lar. Como Shakyamuni fez
para procurar a iluminação. Portanto, tornar-se um monge ou
monja.
59. Local da iluminação. Bodhimandala. O
centro de cada mundo, onde todos os budas alcançam a
iluminação. O termo também refere-se a um templo budista.
60. Local desabitado. Local adequado para
cultivo da espiritualidade.
61. Caminho do meio. O caminho que evita
realismo e niilismo. Existência e não existência.
62. Visão verdadeira. O Óctuplo Caminho
Nobre de Buda começa com a visão verdadeira, que intenciona
irromper a ilusão ou ignorância, o primeiro dos 12 elos da
Corrente do Carma: ilusão, impulso, consciência,
nome-e-forma, órgãos dos sentidos, contato, sensação, desejo,
agarrar, existência, nascimento, envelhecimento-e-morte. Os
dois primeiros referem-se à existência anterior. Os dois
últimos à próxima existência.
63. Samadí. O objetivo da meditação.
Samadi é uma palavra sânscrita para mente não
distraída, uma cobra dentro de um bambu.
64. Cinco trevas. Os skandas ou
agregados, os constituintes da personalidade que obscurecem o
eu verdadeiro: forma, sensação, percepção, impulso e
consciência.
65. Início do nirvana. O nirvana ainda
não está completo antes do corpo ser deixado para trás.
66. Garantia de não renascimento. A
corporificação de nirvana.
67. Terra de buda. Um reino transformado
de imundície à pureza pela presença de um buda, portanto, uma
terra pura. Veja a última seção do capítulo um no Sutra
Vimilakirti.
68. Balsa. Buda compara seu ensinamento à
uma balsa que pode ser usada para cruzar o Rio de
Renascimento Sem Fim. Mas uma vez que serviu ao propósito, a
balsa é inútil. Não é mais uma balsa.
69. Deusa ... garoto apunhalado. A Deusa
aparece no capítulo sete do Sutra Vimilakirti. O
garoto apunhalado pode ser uma referência ao cavalariço de
Shakyamuni. Se for, não estou familiarizado com a
história.
70. Doze entradas. Os seis órgãos e os
seis sentidos.
71. Três alívios. A libertação da ilusão,
raiva e avidez situa-se nas três portas da salvação: não-eu ,
não-forma e não-desejo.
72. Wutou e futzu. Um anestésico é
extraído do futzu, as raízes secundárias que crescem
da raiz básica do wutou (aconitum). A raiz
secundária não se desenvolve até o segundo ano da planta.
73. Três corpos. Nirmanakaya
(Shakyamuni), o sambhogakaya (Amithaba) e o
dharmakaya (Vairocana).
74. A Grande iluminação ocorreu nos
Himalaias. A iluminação de Buda não ocorreu nos
Himalaias, mas no antigo estado indiano de Magadha, sul do
Nepal. Numa existência anterior, entretanto, Buda viveu nos
Himalaias como asceta. Portanto, considerando as vidas
anteriores isso é verdade.
75. Uma pessoa pode engrandecer o
caminho. O caminho não pode engrandecer uma
pessoa. É um dístico de Confúcio (Analectos, Capítulo
15)
Este texto foi traduzido para o português por
Shinzen,
que ofereceu sua tradução como presente ao Lama Samten
na sua ordenação em 14 de dezembro de 1996.
texto gentilmente cedido pelo site
www.bodisatva.org.br
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