Deus e o Vazio
Ryotan Tokuda
Em outubro de 1989 o monge Tokuda
proferiu algumas palestras em Porto Alegre, em uma atividade
conjunta do Centro de Estudos Budistas, Departamento de
Filosofia/UFRGS e Sociedade Brasileira Para o Progresso da
Ciência/RS. Estas palestras foram transcritas nas revistas
Bodisatva 3, 4 e 5, aqui está a última.
Este título "Deus e o Vazio", pode parecer
estranho. O vazio que é a teoria fundamental do budismo,
principalmente do zen, é o "nada". Dentro do cristianismo
também podemos encontrar esta ompreensão do vazio, como nas
palavras de São João da Cruz, místico espanhol. Ele ganhou o
título de "doutor em nada".
Como nas palestras anteriores, vou continuar
falando sobre mestre Eckart, místico alemão, e mestre Dogen,
fundador da linhagem Soto Zen no Japão. Em primeiro lugar
escolhi este sermão de mestre Eckart: "Paulo levantou-se do
chão e com os olhos plenamente abertos nada viu." Na minha
opinião, esse texto tem quatro sentidos: O primeiro é que, ao
levantar do chão com os olhos abertos viu o "nada", e o
"nada" era Deus. O segundo: ao se levantar, nada viu além de
Deus. Terceiro, em todas as coisas nada mais viu além de
Deus. No quarto, quando viu Deus viu todas as coisas como
"nada". Esta frase "quando Paulo se levantou do chão com os
olhos plenamente abertos nada viu" corresponde à experiência
de São Paulo quando ia para Damasco. Era contra Jesus Cristo
- nunca o vira pessoalmente, mas estava em oposição a
ele.
Nessa viagem, escutando a voz de Jesus Cristo,
quase desmaiou. Caiu, levantou-se, tornou a cair, ficou cego
três dias. Depois sua vida mudou totalmente. Em lugar de
atacar Cristo, meio que tornou-se discípulo, mesmo nunca o
tendo encontrado pessoalmente. Começou a pregar a palavra de
Jesus Cristo para os estrangeiros. Chegou até a brigar com
São Pedro. Na Bíblia encontramos esse tipo de experiência
mística de São Paulo e São João.
Comentada por mestre Eckart, a frase me lembra
mestre Dogen no capítulo "vida e morte" do Shobogenzo,
onde dois monges discutiam, "Em vida e morte existe Buda,
logo, prá que preocupar com vida-e-morte? 'Vida-e-morte' é o
mesmo que 'samsara'; mundo ilusório. Na vida
'samsara'; que vivemos com vida, morte, sofrimentos, existe
Buda. Por isso, não se preocupe com essas dores e
sofrimentos, dizia um. E o outro, "Não, nada disso, em
vida-e-morte não existe Buda, não há que preocupar com vida e
morte, pelo contrário."
Um dizia que dentro da vida existe Buda e o
outro afirmava o contrário. Discutiram até que um deles,
percebendo que não conseguiam sair do impasse, propôs
inquirir o mestre, que respondeu, "Um está muito próximo e o
outro longe", e o monge que perguntou insistiu, "Mas quem
está mais perto e quem está mais longe?" e o mestre falou,
quem está mais próximo não precisa perguntar. Em suma, quem
perguntou, perdeu.
Se existe ou não existe Buda dentro de
vida-e-morte é questão ociosa, ambas as posições são
verdadeiras, ambas são a mesma. São as duas faces de uma
moeda. Uma moeda é composta das duas faces. Com pontos de
vista diferentes chega-se a diferentes conclusões, da mesma
forma que o desenho de um cubo, visto de um ponto ou outro,
também muda.
Mestre Eckart vê na experiência de São Paulo
quatro possibilidades. Na primeira, quando ele se levantou do
chão com os olhos abertos e viu o "nada", o "nada" era Deus.
Na segunda, ao se levantar ele nada viu além de Deus. Na
terceira, em todas coisas ele nada mais viu além de Deus.
Isto é igual à discussão anterior sobre o Buda em todas as
coisas. Ou seja, em vida-e-morte existe Buda, por isso você
não precisa se preocupar. Dentro de todas as coisas você pode
encontrar Buda, Deus. Quarta: quando viu Deus, viu todas as
coisas como "nada". Esta é a outra possibilidade. Dentro de
vida-e-morte não existe Buda nem Deus, mas "nada". Por isso
não é necessário se preocupar com vida-e-morte.
Há outras passagens de mestre Eckart: "A luz
que Deus é brilha no escuro. Deus é que é a verdadeira luz.
Para ver isso a pessoa deve estar cega e deve tirar para fora
de Deus tudo o que é algo. Um mestre diz que aquele que falar
de Deus através de qualquer semelhança, fala de modo
simplório Dele. Mas falar de Deus através do 'nada'; é falar
Dele corretamente. Quando a alma unificada entra na total
auto-abnegação, encontra Deus como um Nada."
Aqui se diz "quando se fala de Deus através do
nada, fala-se Dele corretamente". Uma vez um dos monges,
discípulo direto de Buda, cujo nome era Subhuti - aquele que
no Sutra do Diamante faz as perguntas porque entende
sunya, o vazio, profundamente -, estava sentado em
meditação sobre uma pedra. Profunda concentração. De repente,
sente algo cair sobre si. Eram pétalas de flores. "o que está
acontecendo?!" perguntou surpreso, e Deus Brama apareceu, "o
que está fazendo aí?" Subhuti: "Admirando..." Brama:
"Admirando o quê, qual nada, estás falando o vazio." E
Subhuti: "Não estou falando nada". Então Brama concluiu, "É
precisamente isso, estás explicando perfeitamente o vazio",
enquanto pétalas caíam.
A história aqui é mitológica, pertence à
mitologia budista. Diz em resumo que quando você não fala,
fala perfeitamente, com o sermão do corpo, das figuras, dos
gestos, que mostram o interesse, atenção, cansaço, etc. O
corpo fala também durante a meditação. Estando naquele
estado, o vazio fala perfeitamente. A luz de Deus brilha na
escuridão, Deus é a verdadeira luz. Para ver isso deve-se
estar cego, e tirar fora de Deus tudo o que é algo. Cego como
ficou São Paulo durante três dias. Necessariamente.
Há outro discípulo de Buda cujo nome é
Anuruda. Em certa ocasião, durante um sermão de Buda, ele,
sem querer, caiu no sono. Buda chamou sua atenção. De tão
envergonhado, ele tomou a decisão de dali em diante não mais
dormir. À noite, não mais deitava, meditava sentado dia e
noite. Esse treinamento forte o deixou cego. Ele perdeu uma
visão, mas diz-se que isso lhe abriu outra.
Muita gente diz "abriu o terceiro olho". Os
budistas falam no olho do céu. Falam que temos cinco tipos de
olho: o olho de carne, ou olho físico; o olho de sabedoria,
que permite ver as coisas invisíveis; o olho do céu; o olho
de Darma; e, por último, o olho de Buda. Assim, indo além do
olho físico, você começa a ver as coisas que anteriormente
não via. As pessoas acreditam no que estão vendo, mas será
que você está vendo as coisas mesmo, ou a projeção de coisas
de sua mente consciente e inconsciente?
Ri-se de uma historia zen muito engraçada.
Havia uma padaria em frente a um templo budista. O monge
precisou viajar e pediu que o dono da padaria cuidasse do
templo, atendesse visitas, etc. Ocorre que chegou um monge
viajante à aldeia. Antigamente os monges viajavam, numa
espécie de treinamento monástico, visitando outros monges,
mestres e mosteiros. Desafiavam os mais fortes no Darma, e
mantinham-se treinando. O recém-chegado também praticava
assim. Nessas batalhas do Darma, com perguntas e respostas,
quem perdia era obrigado a deixar o templo; quem ganhava
podia ficar como responsável. Uma batalha do Darma era algo
muito sério. Não era uma batalha de luta, mas de
conhecimento, de experiências, de linguagem.
O monge visitante estava chegando e o dono da
padaria, preocupadíssimo, ouvia a sugestão do chefe da
aldeia, "Raspe a cabeça, coloque o manto e apenas sente-se
diante da parede como se estivesse meditando. Faça como se
estivesse em treinamento de silêncio, nada fale, nem escute e
nem responda." O dono da padaria se animou, "Ah, é fácil,
isso eu posso fazer." Raspou a cabeça, colocou o manto e
sentou-se voltado para a parede. Nisso chegou o monge
visitante e começou a fazer perguntas sobre o Darma, a
doutrina budista. O dono da padaria assumiu um tom grave e
fez "Shhh". O monge entendeu, Ah, ele está fazendo muitos
dias de treinamento de silêncio, mas já que estou aqui depois
de tão longa caminhada nas montanhas você vou aproveitar e
perguntar com gestos, assim ele também pode responder com
gestos, sem quebrar seu voto de silêncio.
Gesticulando, perguntou, Como é seu coração,
seu espírito? O dono da padaria respondeu com um grande gesto
para as dez direções, ou seja, os quatro pontos cardeais, os
quatro pontos médios entre eles, para cima e para baixo, "Meu
coração é corno o oceano." Veio a segunda pergunta "Como
viver este mundo?", e o dono da padaria mostrou os cinco
dedos da mão, panca sila, os cinco preceitos: não matar, não
roubar, não cometer adultério, não conduzir os outros a
erros, não usar intoxicantes. O monge sentiu-se tocado, "Ah,
que bonito!" E mostrou três dedos da mão, perguntando, "Onde
estão as três jóas, o Buda, o Darma, a Sanga?" Ao que o dono
da padaria respondeu com o punho, "Não procure longe, está
aqui muito perto, perto do olho, está aqui." Impressionado, o
viajante foi embora.
Vendo isso, o chefe da aldeia correu até o
padeiro, "O que aconteceu? Ele foi embora muito
impressionado, me conta", e o dono da padaria explicou,
"Aquele monge é muito estúpido, primeiro, fez um gesto com as
mãos, perguntando quanto custava o pão, se o pão era muito
pequeno, e eu abri bem os braços mostrando que meu o pão é
bem grande. Ele perguntou quanto custavam dez pães e eu
mostrei-lhe cinco dedos, dizendo cinco moedas, mas ele me
mostrou três dedos, pedindo que vendesse por três, e eu
pensei, que sem-vergonha, e por pouco não lhe acertei um soco
no olho!"
Esta é uma história muito engraçada que mostra
cada um vendo o que está pensando em sua própria mente,
interpretando à sua maneira. Quando você fica velho, toda a
manhã pega o jornal e busca qual página? A necrológica! ...
As cruzes com preto e dourado... Ah, morreu com oitenta e
cinco anos, coitadinho, eu tenho 77 (risos), mas isto não é
brincadeira para uma pessoa. Eu, ao abrir o jornal, nem penso
na seção necrológica, nem na policial, mas corro logo os
olhos para ver o que passa no cinema... "Karatê Kid III, ah,
isto é interessante!..." O que você vê depende de seu
interesse. Aquilo que não lhe interessa, ainda que esteja lá,
você não vê. Muitas vezes ocorre o oposto, você vê o que não
existe, você cria. Por isso, não confie muito naquilo que
esteja vendo. Como podemos ver as coisas verdadeiramente?
Como já disse em palestra anterior, aqui há uma mesa, mas
mesa o que é? Madeira, árvore, pregos e o que mais? Afinal de
contas, nada, vazio. Tudo é vazio.
Para ver a verdade você tem que ser cego e tem
que abrir a outra visão, o olho de Buda, 0 olho da sabedoria,
o olho do Darma, e com isso você pode começar a ver as coisas
invisíveis, ver até o que o outro está pensando, ou o que irá
acontecer daqui a dez anos. Às vezes a gente vê e isto
realmente acontece, não é algo sobrenatural. Meditando,
aquela onda de consciência, a mente fica completamente
tranqüila, como o lago rodeado de montanhas altas. Quando não
há ondas, a água reflete com perfeição a lua cheia. Zazen é
isto, sentando, refletindo, vêem-se as coisas como elas
são.
Mestre Eckart: "Apareceu ante um homem como um
sonho. Foi um sonho acordado em que ele ficou grávido com
'nada'; como uma mulher com um filho no ventre. E daquele
'nada' um filho nasceu; este era o fruto do nada." Deus
nasceu do nada e por isso ele diz: "levantou-se do chão com
os olhos abertos vendo nada."
O treinamento zen no Japão se dá atualmente
através de duas escolas, a escola Rinzai e a Soto. Eu sou da
escola Soto mas fui treinado na Rinzai. Quando você encontra
pela primeira vez seu mestre no mosteiro, geralmente o mestre
dá um koan, uma pergunta, este é o método na escola Rinzai. A
primeira categoria de koans chamamos de "hoshin", ou
"corpo cósmico de Buda". A primeira experiência do zen é
através da meditação onde você encontra o corpo cósmico de
Buda. Abandonando o ego, desaparecendo o seu corpo, aí há
unidade com o universo. Por isso há um koan inicial
como o do cachorro, do mestre Joshu, ou o do som de uma só
mão. Se batem-se palmas ouvem-se sons, mas quando há só uma
mão, qual é o som? Ou o koan do carvalho do jardim da frente,
ou ainda o do rosto original antes do nascimento, antes do
nascimento dos próprios pais. Estas perguntas paradoxais se
destinam a tirar todos os condicionantes mentais anteriores,
limpar a mente. Hoje a escola Rinzai ainda treina assim, mas
as perguntas e respostas originais eram um pouco diferentes.
Um monge perguntou ao mestre Joshu, "Cachorro tem natureza de
Buda?" e mestre Joshu respondeu, "Mu", uma negação. Mas como
Buda havia dito que todos os seres viventes têm a natureza de
Buda, "Por que o cachorro não tem?" Então Joshu respondeu
"Por que tem consciência cármica". Aí outro monge repetiu a
pergunta, "Cachorro tem a natureza de Buda ou não?" Desta vez
mestre Joshu respondeu, "Sim", e o monge complementou, "Por
que então entrou Buda neste corpo coberto de pêlos?"
Durante um retiro de meditação intensiva, você
tem que fazer entrevista "dokusan" com o mestre, cinco
vezes por dia. Você pensa, pensa e imagina ter achado uma
resposta maravilhosa, "Ah, que bom!", e mostra a resposta ao
mestre que responde, "O quê? Nada disso! Vá embora!" O monge
volta a pensar, pensar e pensar. Esforça-se e novamente pensa
ter encontrado uma solução, leva ao mestre e, "Não! Você quer
dar sermão para mim? Vá embora." Desânimo, não era
novamente... E assim vai, tentando, tentando... A função do
mestre e dizer "não, não, não...", sempre não! Mais nada deve
dizer...
O monge fica sem possibilidades. Depois de um
ou dois dias elas estão esgotadas. Sem resposta, não pode
mais visitar o mestre. Para responder o quê? Aí, não tendo
mais o que pensar, ele senta em zazen, mas os monges
veteranos vão buscá-lo, "Venha logo, o mestre está esperando
para a entrevista", e ele responde, "Eu sei, mas não tenho
mais nenhuma resposta". Eles arrastam o monge e o jogam à
porta do mestre, "Ainda há tempo, vamos logo, o mestre está
esperando!" Quando ele entra, e não há outra alternativa
senão entrar, o mestre está na posição formal, sentado ereto,
e pergunta, "Quem está aí? Ah, você, vá embora, vá
embora."
O monge tem que entrar e responder, mas já não
consegue nem mesmo entrar! Que sofrimento! Ter que responder
onde não é mais possível; sentar, a única alternativa é
sentar...! Não há resposta possível! Uma semana com cinco
encontros diários é algo muito longo! Mas não ha como evitar,
é preciso ir e ir novamente, novamente, etc. Cada um, no
entanto, tem seus próprios koans, adequados ao seu nível de
compreensão. No meu caso foi o primeiro koan, o "mu" do
cachorro, de Joshu. ..
Quando se chega ao retiro muitos são os monges
novatos e o mestre não se lembra de todos, cada um tem que
apresentar o que está fazendo, que tipo de koan está
aprendendo. É preciso falar em japonês o enunciado todo do
koan em uma voz empostada, uniforme e sem pontuação, mas
enfática, como uma recitação de sutra:
"UM MONGE PERGUNTOU A MESTRE
JOSSHUUUUuuuu
CACHORRO TEM A NATUREZA DE BUDA OU NÃOOOOoooo
E JOSSHU RESPONDEUUUUuuuu
MUUUUUUUUUUUUUUUUUUuuuuuuuuuuuuu"
E o mestre responde "Humm; ainda muito
insuficiente." Quando você expira, tem que ser como uma cunha
que corta um tronco, deve durar dez segundos, quinze
segundos, até trinta segundos. Neste momento você não pensa
em nada. E assim segue, "MUUUUUuuuuuu....", dia e noite, como
uma bola de ferro fervente, vermelha, queimando todos os
pensamentos e idéias anteriores. Você não pode vomitá-la, não
pude engoli-la e ela está aqui embaixo do umbigo também, no
ponto de "kikai". E não há resposta; chegando à frente
do mestre, apresenta este "MU" e quando está muito bem o
mestre resmunga "HUum HUum". Que alívio, que bom! O monge
está concentrado com todas as forças físicas do espírito e da
vontade. O "mu" vem do topo da cabeça à extremidade do
pé. E assim vai indo, vai indo... De repente, fazendo a
concentração de "mu", você encontra aquela parede,
aquele paredão, aquela muralha de ferro. Você se concentra e
não consegue, cai, tenta novamente e cai, e assim vai. Isto é
mais do que um general enfrentando mil inimigos, pegando
aquela espada de três quilogramas, onde ela passa corta tudo.
Assim corta todos seus pensamentos anteriores e vai indo,
indo, indo, às vezes uma semana, às vezes sete anos; durante
sete anos apenas "muuuu..." - tem que ter muita paciência.
Mas de repente essa parede quebra. Isto é "kenshu", a
primeira experiência zen. Não é fácil, é necessário ter muita
força de vontade.
Voltando ao nosso assunto, cachorro tem
natureza de Buda? Não, não tem. Por quê? Buda disse, Todos os
seres viventes têm natureza de Buda, então por que o cachorro
não teria? Se Buda está falando a verdade, o mestre está
mentindo, se o mestre está falando a verdade, então Buda está
mentindo. Isso é um dilema. Este é o método do zen, o dilema,
buscando limpar todos seus esquemas de raciocínio lógico e
com isto penetrar dentro do inconsciente. A função é essa.
Hoje em dia vejo assim, mas naquela época não sabia nada
disso. Apenas nada havia para ser dito, mas o mestre pegava o
monge pelo pescoço e dizia, "Fala, fala, fala!"... Falar o
quê? Nada havia para falar! "Fala, fala!" Ufa!! Não tenho
nada para dizer!... "Fala, fala".
E brota o grito
"KAAAAAAAAAaaaaaatttzzzz......". O famoso "katz".
Parece uma loucura, mas é algo muito sério entre os que estão
vivendo isso. "Chegou o momento de dokusan, anda."
Atravessando o corredor, passo a passo, firme.
E o fato do monge ter consciência cármica que
o impede de atravessar o muro. Quem tem consciência cármica
não consegue ver além de seus carmas! Outro monge vem e
pergunta ao mestre, Cachorro tem natureza de Buda? Resposta:
Tem. Então por que entrou dentro deste corpo coberto de
pêlos? Ele entrou com um propósito, sabendo que em vez de
entrar no paraíso entra no estado animal, ou no estado dos
demônios famintos, ou até no inferno. Ele está pronto para
isso. Hoje pela manhã foram citadas estas palavras de São
Paulo: "Se for para a glória de Deus, posso ser até mesmo
separado de Deus, posso entrar em quaisquer tipo de
dificuldades." Esse é o verdadeiro espírito de bodisatva. Mas
quando você entra no inferno, a cada passo que é dado, este
mundo muda e transforma-se no paraíso, isso é o que acontece.
Isso é uma coisa milagrosa. Moisés atravessou o Mar Vermelho
que se abriu para ele. Milagre! Mas isso acontece. Muitas
vezes encontramos uma dificuldade insuperável; como
atravessá-la se até mesmo a visão não é possível e está tudo
nebuloso? É possível ver apenas um passo, dois passos, cinco
metros, e só após andar um longo trecho a visão é possível
novamente e o nevoeiro esta superado. E preciso ir andando.
As dificuldades chegam de todos os lados à volta de você.
Pensando logicamente é impossível chegar até lá, mas passo a
passo vai-se indo, confiando no caminho de Deus ou de Buda,
superando as dificuldades uma a uma e termina-se chegando no
outro lado. Sabendo isto, com este propósito, entra-se no
estado inferior.
E como o exemplo de ontem. A esposa perdeu a
vista e o marido perfurou seus próprios ólhos para
acompanhá-la. Deus é isso. Deus está lá, por que precisaria
vir aqui? Ele é puro, perfeito, por que escolher este mundo
doloroso e chegar até mesmo a viver a crucificação como um
criminoso, com suas mãos e pés pregados ao lenho? Ele estava
lá tão bem com o Pai. Ele escolheu isto. Escolhendo este
mundo inferior, doloroso, sofrido, Deus encarnou, tornou-se
homem para ajudar a nós. É isso aí.
Quando cachorro é cachorro, é Buda, porque
dentro de todas as coisas Deus está. Além disso nada mais há.
Dentro de todas as coisas pode-se ver Deus, apenas Deus,
então por que não dentro de um cachorro? Então cachorro
enquanto cachorro é Buda. Cachorro é Buda, mas não é preciso
dizer que cachorro é Buda. Basta dizer "cachorro". E por isso
que se diz que dentro de vida-e-morte não existe Buda.
Quando se diz "cachorro é Buda", está se
comparando, cachorro está sendo colocado como algo absoluto,
como Deus, ou como Buda. Quando cachorro é realmente
cachorro, nem é preciso dizer que é Deus, basta chamá-lo de
cachorro, pronto. Então, nesse momento, Deus desaparece e com
isto surge a perfeição, porque todas as coisas estão no seu
lugar, no seu estado perfeito, absoluto, cada um de nós
também. Neste momento você tem que realizar, não amanhã, ou
depois de amanhã, mas nesta vida. Por isso se diz, aqui e
agora você tem todas as condições. As jóias do tesouro já
estão dentro de sua casa, apenas é necessário abrir a porta e
usar livremente.
RESPOSTAS A AUDIÊNCIA
Não sei por que no Oriente a ciência não
se desenvolveu. Creio que é pelo fato de a ciência, de certo modo, ser muito analítica e no
Oriente trabalhar-se mais com a intuição.
O que me preocupa como médico de medicina
oriental é que o pensamento da ciência, buscando encontrar a
verdade - e isso é muito bom -, se lança em analisar mais e
mais, perdendo a visão global. A medicina oriental já se
preocupa com isto, descobrir os meridianos. Dentro das
orelhas com a auricultura, encontra- se todas as partes do
corpo. Dentro das palmas das mãos também encontra-se todas as
partes do corpo, da mesma forma nas palmas dos pés e no
intestino grosso. Dentro dessas pequenas partes, o
conhecimento da medicina oriental permite encontrar fígado,
estômago, baço, pâncreas, etc. Não sei como foi isso
descoberto.
Hoje em dia a medicina tradicional está muito
preocupada em analisar e encontrar a verdade "no fundo", e
com isso perde a visão global. O que acontece? Cada
especialista de fígado, estômago, pulmão, vista, orelha,
etc., perdeu a visão global da relação de cada órgão com os
demais. Não sei como os orientais descobriram isto pela
própria experiência. Hoje em dia a ciência está começando por
baixo, aceita que existam os meridianos, que existam essas
teorias - e realmente existem e funcionam.
Então estamos vivendo o momento em que a
experiência está à frente mas carece de explicações lógicas.
O médico que incorpora práticas orientais milenares não tem
explicações para o que observa e pratica, apenas vem praticar
a arte da cura através da experiência. Desta forma, neste
momento a ciência está começando a provar o que já se
praticava há muito tempo na medicina oriental. De certo modo,
podemos dizer que a ciência está atrasada e que agora é que
começa a incorporar essas experiências.
Nos Estados Unidos fizeram uma experiência
muito interessante: primeiro uma câmara focava um parque em
pleno centro da cidade, Nova Iorque ou Boston. No parque
havia um casal de namorados sentados e abraçados. A partir
desse ponto, a câmara começa a afastar-se cada vez mais,
mostrando inicialmente o banco, depois o parque inteiro, a
cidade inteira, a região metropolitana, o estado, o país
inteiro, o continente americano, e afastando-se mais e mais,
o globo terrestre e ainda a Terra como uma estrela entre
outras. Depois voltando novamente até o parque, com o casal
conversando no banco, e continua aproximando mais e mais, a
pele, o interior do corpo, o átomo, o elétron, o próton e o
que mais. Conseguindo isso, até onde é possível ir? Essa é a
questão.
Primeiro a busca das causas; a questão dos
físicos e da ciência é, ao mesmo tempo, uma questão
religiosa: "de onde veio a vida?" Os cientistas podem criar
uma coisa com alguns materiais. Se não tiverem os materiais
como ponto de partida, nada podem fazer e criar. Aí vem a
pergunta "Deus nasceu de nada, como pode acontecer isso?"
Ainda não temos resposta para isso, tanto na ciência como na
religião.
Fazendo como a câmara que se afasta, indo até
os confins do universo, será que o universo tem fim ou não?
Todos querem essa resposta mas ela não é conhecida, então
como é o final do mundo? O universo é como um prédio grande?
Mas então, ultrapassando a parede desse prédio, o que há
além?
O infinito não pode ser imaginado. E o vazio,
o que é isso? Não entendo. Essa é a busca dos cientistas e da
mesma forma é também a busca dos religiosos e dos
budistas.
Mergulhando-se mais e mais encontra-se o que?
Encontra-se aquela experiência direta, o vazio, e vazio é
tudo. Esse vazio não significa haver ou não-haver, ou o
niilismo. Quando há o nada, há o tudo ao mesmo tempo.
Encontra-se essa resposta. Aqui não há lógica. Encontra-se o
tudo, mas com intuição direta, com experiência própria é que
se encontra e com certeza absoluta. Sente-se isso, e isso é o
encontro com Deus como o "nada".
texto gentilmente cedido pelo Centro
de
Estudos Budistas Bodisatva
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