Zen-Budismo convida você a assumir a sua loucura.
E transcendê-la.
A língua é o órgão menos adequado para expressar o significado do
Zen. A barriga talvez seja mais apropriada. Alguns povos orientais, quando
visitados pela primeira vez por um grupo de cientistas dos E.U.A. e sabendo que
os norte-americanos pensavam com a cabeça, puseram-se logo a achar que eles eram
loucos. E se explicaram: "É que nós, orientais, pensamos com o abdômen". As
pessoas na China e no Japão, quando notam que alguém está com algum problema
difícil, costumam dizer: "Pergunte à sua barriga, ela sabe a resposta".
Zen não escapa desta regra. Tentar compreender o Zen-Budismo
intelectualmente é perder para sempre o seu significado. O intelecto serve a
vários propósitos na vida diária, não há dúvida de que se trata de uma coisa
utilíssima. Mas não resolve o problema crucial com que todos nós, cedo ou tarde,
esbarramos em nossas vidas: o problema da vida e da morte, que diz respeito ao
verdadeiro sentido da vida. Quem sou eu? Onde estão meu principio e fim no tempo
e no espaço? Onde estava eu antes que meus pais nascerem? Para onde que vou
depois que morrer?
Quando enfrentamos esse problema, o intelecto precisa confessar
sua incapacidade de lidar com ele. O beco sem saída a que somos conduzidos não
pode ser ultrapassado por uma manobra intelectual ou por um artifício da lógica.
É necessária a totalidade do nosso ser. E é neste momento que o Zen surge como
uma possibilidade, um caminho em direção á resposta do problema.
Portanto, tentar conhecer o Budismo Zen com o objetivo de ampliar
nossa cultura geral é uma tolice semelhante a pedir a alguém que beba água em
nosso lugar e esperar que a sede passe: o que nos descrevam o gosto de uma fruta
ou a temperatura da água. Tudo isso depende da experiência pessoal, direta.
O Zen-Budismo é místico? Essa pergunta é muito freqüente, quando
as pessoas ouvem falar do assunto pela primeira vez. O Misticismo é um ponto
crucial, que faz com que os ocidentais falhem todas as vezes que tentam
compreender a mente oriental. Por que o misticismo desafia a analise lógica, e
esta é a característica fundamental do pensamento ocidental. O conceito
ocidental de místico está sempre ligado ao fantástico, ao irracional, ao oculto.
No oriente, misticismo não se refere a nada que não possa ser trazido para
dentro da compreensão intelectual. Portanto, o Zen-Budismo é místico na medida
em que o Sol brilha todas as manhãs, a lua surge todas as noites, e as flores
deixam seu perfume na manga da nossa camisa, quando as tocamos de perto. Se
isso é misticismo, então o Zen-Budismo é profundamente místico.
O Zen-Budismo é um sistema filosófico, intelectual? Não. O
Zen-Budismo não é fundado na lógica ou na análise, é o contrário da lógica e do
modo dualístico (ex. bom, mau - bonito, feio - vida, morte...) de pensar. Não
existem no Zen, livros sagrados, dogmas ou quaisquer fórmulas através das quais
se possa chegar ao seu significado. E o que o Zen-Budismo ensina? Nada. O Zen
aponta o caminho, o resto é por nossa conta.
Zen é caótico, uma virtual negação de tudo, pelo menos se o
virmos com a ótica racionalista da mente ocidental. Mas, por trás desta sucessão
de negativas, o Zen-Budismo sustenta algo absolutamente positivo e eternamente
afirmativo. Zen-Budismo é um estilo de vida e se propõe, por métodos práticos e
diretos, a disciplinar a mente por si mesma, fazendo-a mergulhar em sua própria
natureza. É um exercício que consiste em abrir o olho mental dos seus
praticantes para que eles despertem do sono profundo da ignorância e vejam de
perto a própria razão da existência. Só assim poderão contemplar o grande
mistério que é representado diariamente.
O que é mente? É a verdadeira natureza de todos os seres, aquilo
que existia antes que nossos pais tivessem nascido e antes do nosso próprio
nascimento e que existe agora, imutável e eterna. Quando nascemos ela não é
criada, e quando morremos ela não é destruída. Não tem nenhum tipo de distinção,
nenhuma conotação de bom ou ruim. Não pode ser comparada a nada, e a chamamos
Natureza de Buda. Muitos pensamentos surgem dela, como as ondas do oceano e as
imagens num espelho. Quem deseja conhecer a própria mente deve, antes de tudo,
olhar a própria fonte da qual surgem os pensamentos. O que é chamado Zazen não é
mais do que olhar a natureza da mente. Aquele que conhece a própria mente é um
Buda e livra-se para sempre dos sofrimentos que surgem da ignorância.
Este ensaio sobre o Zen-Budismo, com final do jornalista Marco
Antônio Lacerda é
baseado em 3 Obras sobre o assunto:
Zen Buddhism and Psychoanalysis,
Essays in Zen Buddhism e Misticism;
Christian and Buddhist,
todos de autoria de D.T. Suzuki
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