As Quatro Nobres Verdades
Prof. de Dharma Rodney Downey (do Zen coreano)
Tradução: Ricardo Sasaki & Rosana Lucas
Editor da palestra oral: Ricardo Sasaki
Gostaria de começar falando sobre alguns enganos que
temos a respeito do Dharma do Buddha, os quais são muito comuns em todo
o mundo ocidental, e mesmo no Oriente. A causa desses enganos tem a ver
com palavras e com aquilo que elas significam.
Hoje, no café da manhã, eu comi bolo. E ontem eu aprendi
que existe uma expressão em português: Quando você vai se encontrar com
uma pessoa e ela não comparece, diz-se que você "ganhou um bolo".
Imaginem que daqui a 500 anos, um arqueólogo encontre um diário de
anotações de um brasileiro. Lá é dito: "Eu fui encontrar com Paulo e
ganhei um bolo". O tradutor diria que eles comeram um bolo juntos! Esta
é a armadilha das palavras, as quais têm um significado para uma época e
cultura em particular. O mesmo se dá com alguns dos ensinamentos do
Buddha.
Consideremos as Quatro Nobres Verdades, as quais estão no
centro do ensinamento do Buddha. A tradução usual das Quatro Nobres
Verdades é: "A vida é sofrimento; a causa do sofrimento é o desejo; a
cessação do sofrimento é se ver livre do desejo; o modo de fazê-lo é o
Caminho Óctuplo".
Isto está correto? De modo algum! Isto não é o que o
Buddha falou. Este é o problema! Vamos começar com a Primeira Nobre
Verdade, que é sempre traduzida como "A vida é sofrimento". Mas que
coisa horrível! Veja a vida! É uma força excitante e de grande
diversidade, de inacreditável deleite. Por que, então, é traduzido como
a vida é sofrimento?
Vamos examinar a língua em que o Buddha falava. O Buddha
disse, de fato, que a vida é dukkha. Esta palavra sempre é traduzida
como sofrimento, mas isso não é de modo algum o que significa. A raiz de
dukkha é duk, e significa "eixo". Veja a época do Buddha: A forma mais
complexa de transporte era uma carroça; era uma carroça de madeira, como
é na Índia ainda hoje, com um eixo de madeira unindo duas rodas também
de madeira, e puxada por búfalos.
A palavra dukkha
significava o eixo que está fora do prumo, que está fora de alinhamento.
Imaginem o sofrimento de uma pessoa sentada nessa carroça, a força que
os búfalos devem fazer e, ao invés da carroça seguir suavemente, ela
está fora do eixo, desalinhada.
Então, Buddha fala sobre a vida - a vida de todos nós -
usando o exemplo da carroça que tem seu eixo fora de alinhamento. Ele
diz que nossas vidas estão fora de equilíbrio. E é esse desequilíbrio
que leva ao sofrimento. Ele nunca disse que a vida é sofrimento. Este é
um ponto muito importante. Nossas vidas estão fora de equilíbrio, ou,
como os chineses falariam, não está fluindo junto com o Tao. Ambas as
expressões significam a mesma coisa. Esta é a Primeira Nobre
Verdade.
A Segunda Nobre Verdade se refere à razão da vida ser
assim, e isso é geralmente traduzido como desejo. Mas nós teríamos uma
vida muito estranha se não tivéssemos desejos. Não é o que o Buddha
falou. A palavra que o Buddha usou foi trishna e significa 'sede'. Nas
palavras do próprio Buddha isso foi descrito: "É como um homem vagando
no deserto por muitos dias, sedento por água". Isso também é a sede do
'eu quero' e do 'eu não quero', e é por isto que todos nós sofremos.
O que é este 'eu quero' e 'eu não quero'? O que isso
indica? Significa que não estamos satisfeitos com este momento, 'agora'.
Porque se estivéssemos 'aqui' (Rodney bate no chão), não haveria
'querer' nem 'não querer'. Simplesmente haveria este momento, agora. O
Buddha, utilizando-se deste exemplo, estava dizendo: "Esteja com este
momento". O momento em que você quer ou não quer é o momento em que você
deixa o agora, o momento presente, e aí, então, isso leva ao
sofrimento.
Então, esse desequilíbrio que temos faz com que nunca
estejamos no momento e, não estando no momento, isso leva ao sofrimento.
É muito simples. Agora você pode examinar a sua própria vida a partir
dessas palavras.
Mas o Buddha não parou por aí. Ele nos deu uma cura para
este 'não estar no momento', este sofrimento. Esta cura é a Terceira
Nobre Verdade, que é a verdade mais mal entendida de todas.
Ele fala do Nirvana ou Nibbana, que é uma palavra que é
usada em todas as línguas nos dias de hoje, mas ninguém sabe o que
significa. A palavra é muito simples. Significa expirar, apagar - como
apagar uma vela. Muito simples! O Buddha apenas usava palavras simples,
mas mesmo assim elas foram totalmente mal compreendidas, porque
geralmente ela é traduzida como extinção do desejo. Correto? Não
significa de modo algum isto.
No tempo do Buddha, a palavra nirvana, apagar,
significava simplesmente isto: apagar. Mas havia uma grande diferença.
De acordo com a ciência e a filosofia do Vedanta, quando você apaga uma
chama, como em uma vela ou em uma lâmpada de óleo, você diz que a chama
ficou livre. Quando você acende uma vela, você captura a chama, como se
a colocasse numa gaiola. Então, em 'nossa' idéia de apagar uma vela nós
dizemos 'extinguir' ou 'matar'; mas, na época do Buddha, apagar uma
chama significava libertá-la. Da mesma forma como seu "bolo"; coisas
completamente diferentes!
Então, o Buddha nunca disse algo como matar os seus
desejos; ele falava da libertação ou liberdade deste apego ao 'eu quero'
ou 'eu não quero'. Quando você abandona isso, então a sua vida entra num
equilíbrio. Aí, então, você está completamente livre. Este é um
ensinamento maravilhoso, porque ele é prático e você pode vê-lo em sua
própria vida.
Se você sempre está no momento, você não pode sofrer,
você está livre para ir para o próximo momento, livre para seguir para o
próximo momento, sempre totalmente livre, sem estar preso no 'eu quero'
ou 'eu não quero'. E é isso que o Buddha ensinava. Ele, então, nos deu o
Caminho Óctuplo como uma forma de alcançar isso. Da mesma forma como as
pessoas dizem hoje: "Como eu posso levar esta prática para a minha
vida?", o Buddha nos deu a resposta. É o Caminho Óctuplo: A Compreensão
Correta, o Pensamento Correto, a Linguagem Correta, a Ação Correta, os
Meios de Vida Correto, o Esforço Correto, a Vigilância Correta, a
Concentração Correta. Mas cuidado com a palavra 'correto', porque
'correto' implica que há um 'errado', e o Buddha não usava a palavra
desta forma; o Buddha não falava desde um ponto de vista dualista.
Uma palavra melhor do que 'correto' é 'apropriado'.
Linguagem Apropriada, Pensamento Apropriado, Compreensão Apropriada,
etc. Vamos, então, apenas examinar um desses fatores, utilizando a
palavra 'apropriada' ao invés de 'correta'. Linguagem Apropriada
significa não falar mal de uma outra pessoa, não utilizar palavras para
se mostrar, não utilizar palavras para sugerir algo que não é correto.
Há muitos exemplos em suas vidas. Simplesmente falar demais é uma
linguagem inapropriada. Podemos falar que ler demais também é uma
linguagem inapropriada, ou ver televisão demais também seria linguagem
inapropriada.
O que o Buddha quis fazer ao ensinar sobre essas várias
ações não apropriadas foi nos dar um instrumento para examinarmos as
nossas próprias vidas. O que significa 'apropriado' em termos de nossa
vida? Significa Linguagem, Ação e Pensamento que nos ajudam a nos
livrarmos de nosso desequilíbrio, de nosso dukkha.
O Caminho Óctuplo usado apropriadamente irá nos ajudar a
colocar a nossa vida em equilíbrio. Isso não é algum ensinamento
esotérico, nem aquilo que freqüentemente acontece no ensinamento mal
compreendido sobre o que o Buddha ensinou.
As Quatro Nobres Verdades são muito práticas, baseadas na
vida real. É um ensinamento sobre como viver a sua vida. E posso
assegurar a vocês, que se lerem qualquer ensinamento do Buddha que
parecer muito distante de sua vida agora, isso é uma tradução ruim.
Porque o Buddha era um homem prático e inteligente, que olhava
profundamente para o que fazemos conosco. A partir daí, ele nos ofereceu
um modo de sair disso. Espero que isso que falei sobre as Quatro Nobres
Verdades tenha lançado um pouco de luz. Muito obrigado!
(c) Edições Nalanda, 2002
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